Malha aérea encolhe e 18 cidades perdem voos comerciais em um ano

O número de aeroportos brasileiros que registraram voos regulares caiu de 155 em julho de 2024 para 137 em julho de 2025, segundo o Relatório de Oferta e Demanda da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). O recuo, de 18 terminais em doze meses, amplia a distância em relação aos 162 aeroportos atendidos em julho de 2023.

Demanda recorde, cobertura menor

Apesar da redução na abrangência da malha, o volume de passageiros atingiu o recorde histórico de 11,6 milhões em julho. A ocupação média das aeronaves beirou 86%, reflexo de demanda aquecida e de oferta mais concentrada de assentos.

Impacto da reestruturação financeira

As três maiores companhias do país – Latam, Gol e Azul – passaram pelo Capítulo 11 da lei de falências norte-americana após a pandemia. Latam concluiu o processo em 2022; Gol saiu do procedimento em junho de 2025; e a Azul ingressou em maio último, com plano de captar US$ 1,6 bilhão em financiamentos e até US$ 950 milhões em aportes para reduzir mais de US$ 2 bilhões em dívidas.

No âmbito desse ajuste, a Azul suspendeu operações em 14 aeroportos nos meses de fevereiro e março; em 13 deles era a única operadora. A malha total da empresa diminuiu de mais de 160 para 137 destinos desde o início do ano. Hoje, a companhia atua sozinha em quase metade dos aeródromos que ainda contam com voos regulares.

Cidades isoladas sentem prejuízos

Campos dos Goytacazes (RJ) é uma das 13 cidades que ficaram sem voos comerciais após a saída da Azul. Segundo o subsecretário municipal de Turismo, Edvar Júnior, eventos e seminários passaram a ser cancelados pela dificuldade de acesso. Empresários da região relatam aumento de tempo e custos de deslocamento: trajetos antes cumpridos em uma hora de voo agora exigem até seis horas entre estrada e conexões.

Mônica Bivar, tabeliã em São João da Barra, afirma que viagens ao Rio de Janeiro passaram a consumir quatro horas e meia de carro. Outra alternativa, o ônibus, leva quase sete horas.

Custos atrelados ao dólar pressionam tarifas

A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) calcula que 60% dos custos do setor estejam vinculados ao dólar, impacto ampliado pelo valor do querosene de aviação (QAV) e pelo IOF cobrado sobre leasing e manutenção de aeronaves. Em julho, a inflação geral foi de 0,26%, mas o grupo Transportes avançou 0,35% puxado por alta de 19,92% nas passagens aéreas em plena temporada de férias.

Medidas em estudo

O Ministério de Portos e Aeroportos aponta três frentes para estimular a aviação regional: alíquota diferenciada prevista na reforma tributária, linhas de crédito de R$ 4 bilhões com contrapartida de rotas para a Amazônia Legal e Nordeste, e discussões para reduzir o preço do QAV e tributos sobre leasing.

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Imagem: Marcia Foletto via oglobo.globo.com

Especialistas defendem ajustes estruturais. Para Alessandro Oliveira, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), o interior do país é especialmente vulnerável a cortes de malha. Já o advogado Fabio Falkenburger, do escritório Machado Meyer, menciona a necessidade de aviões de menor porte e de condições econômicas que permitam à classe C acessar o transporte aéreo.

Embora a alta demanda mostre disposição do público para voar, a combinação de custos elevados, frota reduzida e reestruturações financeiras mantém cidades afastadas da aviação comercial, ampliando o desafio de conectar um país com mais de 500 aeroportos públicos, mas apenas 137 efetivamente operacionais para voos regulares em julho.

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Com informações de O Globo