Mercado eleva projeções de inflação e Selic até 2029 às vésperas do Copom após reeleição de Lula

Economistas consultados pelo Boletim Focus ajustaram 15 de 16 estimativas-chave e agora preveem inflação, Selic e dólar mais altos entre 2026 e 2029, sinalizando menor espaço para cortes de juros a partir da reunião do Copom desta quarta-feira (4), a primeira após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Revisões expressivas nas metas de inflação

A nova rodada do Focus, apurada após o segundo turno, trouxe a maior alteração no Índice de Preços ao Consumidor Amplo desde o início de 2026. A projeção para 2027 saltou de 4,34% para 4,76%, ultrapassando o teto de 4,5 % do intervalo de tolerância da meta. Para 2026, houve avanço de 5,19% para 5,22%. Os horizontes mais longos não ficaram imunes: 2028 subiu de 3,75% para 4,00%, enquanto 2029 passou de 3,50% para 3,98%.

Ao todo, 15 das 16 variáveis pesquisadas sofreram mudança — a única exceção foi o crescimento do PIB de 2029, mantido em 2 % pela 85.ª semana consecutiva. A revisão em bloco indica percepção de que choques cambiais e expectativas de política fiscal podem manter a inflação acima da trajetória desejada por um período prolongado.

Expectativas para o câmbio reforçam pressão sobre preços

O movimento adverso no câmbio ocorreu logo após a surpresa eleitoral. No primeiro pregão subsequente, o dólar disparou 8,21 % e o Ibovespa recuou 13,88 %, forçando correções de portfólio. Esse salto cambial refletiu-se no Focus: o valor esperado para a moeda norte-americana ao fim de 2026 avançou de R$ 5,05 para R$ 5,34. Para 2027, a previsão subiu de R$ 5,15 para R$ 5,40; em 2028 e 2029, as estimativas passaram a R$ 5,40 e R$ 5,45, respectivamente.

Um câmbio mais depreciado tende a elevar os custos de bens importados e de insumos industriais denominados em dólar, alimentando a cadeia de preços doméstica. A persistência dessa dinâmica explica parte da deterioração esperada para a inflação nos próximos quatro anos.

Selic mais alta e cortes de juros mais lentos

Com expectativas inflacionárias acima do centro da meta, o Focus registrou elevação generalizada nas taxas de juros projetadas. A estimativa para a Selic de 2026 subiu de 13,25 % para 13,50 % ao ano; para 2027, o salto foi ainda maior, de 11,75 % para 12,50 %. Em 2028, o mercado já trabalha com 11,00 %, ante 10 % na sondagem anterior. Para 2029, após 25 semanas de estabilidade, a taxa projetada avançou de 10,00 % para 10,25 %.

A Selic atualmente está em 13,75 %. O consenso geral do Focus continuou apontando corte de 0,25 ponto percentual na reunião do Copom de novembro, mas as respostas enviadas nos últimos cinco dias úteis migraram para manutenção da taxa, indicando 13,75 % tanto em novembro quanto em dezembro. O desvio sugere que participantes mais atentos à recente volatilidade já descartam novos afrouxamentos monetários em 2026.

Mercado eleva projeções de inflação e Selic até 2029 às vésperas do Copom após reeleição de Lula - Imagem do artigo original

Piora nas projeções de crescimento econômico

Enquanto preços e juros sobem, a mediana para o PIB recuou. Para 2026, a expectativa caiu de 1,80 % para 1,76 %, quarta retração semanal consecutiva. Para 2027, a projeção diminuiu de 1,31 % para 1,20 %. Entre os analistas que atualizaram estimativas mais recentemente, a mediana já aponta 1,70 % para 2026 e 1,00 % para 2027, refletindo avaliação de que juros elevados por período prolongado tendem a frear investimento e consumo.

O hiato do produto menor, aliado à inflação resistente, coloca a economia em posição delicada: sem espaço para estímulos fiscais robustos devido ao compromisso com responsabilidade fiscal, a política monetária permanece como principal instrumento de ancoragem das expectativas.

Contexto político e reação do mercado

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva contrariou a maior parte das apostas financeiras, que precificavam vitória de Flávio Bolsonaro. O choque eleitoral desencadeou busca por proteção cambial e redução de exposição a renda variável local. A atualização do Focus traduz essa reavaliação de risco: maior prêmio exigido na curva de juros, câmbio mais depreciado e expectativa de inflação ultrapassando o limite superior das metas.

Parte da preocupação deriva das incertezas em torno da composição da equipe econômica para o quarto mandato e da condução da política fiscal. A manutenção do arcabouço orçamentário e o comprometimento com o teto de gastos — ou eventual revisão dele — continuam pontos monitorados pelos participantes do mercado.

Conclusão técnica e próximos passos

As revisões do Boletim Focus refletem a rápida incorporação do cenário pós-eleitoral aos modelos dos analistas: inflação persistentemente acima da meta, Selic elevada por mais tempo e PIB com menor fôlego até 2029. A sinalização, às vésperas do Copom, é de que o colegiado tende a adotar postura mais cautelosa, priorizando a preservação das expectativas ancoradas. A trajetória futura dos indicadores dependerá da credibilidade da política fiscal, do comportamento do câmbio e da dissipação — ou não — dos choques de preços observados desde o resultado das urnas.

0

Carregando conteúdo…