Movimento na fronteira Brasil-Venezuela cresce em meio a incerteza política em Caracas

O corredor que liga Pacaraima (RR) a Santa Elena de Uairén, no estado venezuelano de Bolívar, vive um clima de expectativa cautelosa desde a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, no sábado (3). Na manhã de terça-feira (5), um letreiro fixado no posto venezuelano alertava: “É tempo de lealdade; duvidar é traição”. Ao lado, um cartaz de aproximadamente dois metros exibia a foto do opositor Edmundo González com a frase “estamos te procurando”.

González, que se autoproclama presidente legítimo e vencedor das eleições de julho de 2024, permanece no exílio. Após a detenção de Maduro, o país é conduzido interinamente pela vice Delcy Rodríguez, situação que alimenta rumores sobre possível entrega do ex-mandatário por figuras próximas ao poder, inclusive a própria Delcy e o irmão, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional.

Fiscalização reduzida na passagem

Na aduana de Santa Elena, apenas quatro militares venezuelanos e duas agentes migratórias faziam a triagem de entrada. A reportagem não foi abordada e, por orientação de moradores, evitou fotografar o cartaz de procurado para não gerar conflito com os soldados.

Do posto fronteiriço até o centro da cidade são cerca de 15 km. O trajeto passa pelo Forte Roraima, por um duty free desativado, pequenos mercados e hotéis tradicionais, como o Anaconda e o Gran Sabana, que mantém um cassino. Diferentemente do cenário esvaziado observado no domingo (3), ruas e comércios estavam cheios na terça-feira. Caminhonetes eram carregadas com mercadorias variadas, todas etiquetadas em reais.

Rodoviária lotada e câmbio nas calçadas

No terminal rodoviário de Santa Elena, o fluxo de passageiros indicava chegada de venezuelanos de outras regiões. Um cambista trocava R$ 5 por 500 bolívares, cotação usada por viajantes que pretendem atravessar para o Brasil. Funcionários da rodoviária contaram 90 veículos deixando o local em direção à fronteira durante a manhã; nenhum ônibus procedente de Caracas havia chegado até o meio-dia, mas a previsão era de desembarque noturno.

Apesar do movimento, não houve reforço visível de tropas na cidade. Em frente a um destacamento da Guarda Nacional Bolivariana, na confluência das ruas Mariscal Sucre e Bolívar, apenas um veículo militar estava estacionado.

Fluxo migratório segue monitorado

Do lado brasileiro, o número de venezuelanos entrando no país permanece abaixo do registrado em dezembro. Segundo a Polícia Federal, o último mês de 2025 contabilizou média diária de 280 migrantes. Entre domingo (3) e segunda (4), o órgão registrou 259 entradas.

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Imagem: www1.folha.uol.com.br

A Operação Acolhida, iniciativa do governo federal para triagem e interiorização dos recém-chegados, mantém filas constantes em Pacaraima. Na terça, o pescador Nestor Urvina, 54, vindo de Puerto la Cruz (a 1.000 km da fronteira), avançava para a etapa de vacinação e emissão do cartão do SUS. “Mais um passo. Se Deus quiser, vai dar tudo certo”, afirmou enquanto segurava os primeiros documentos obtidos no Brasil.

Ainda não é possível prever se o fluxo migratório crescerá nos próximos dias. A única certeza compartilhada por moradores dos dois lados da fronteira é a dúvida sobre o rumo político em Caracas, enquanto a Venezuela aguarda definições após a saída abrupta de Maduro e a atuação do governo provisório.

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Com informações de Folha de S.Paulo