Nem na crise de 2016 o Bradesco esteve tão descontado: Morgan Stanley calcula potencial de alta de 92%

Uma desvalorização de 37% desde o segundo turno das eleições reduziu o múltiplo Preço/Patrimônio do Bradesco (BBDC4) para 0,7 vez, o menor patamar em dez anos, levando o Morgan Stanley a reiterar recomendação de compra com preço-alvo de US$ 4,75 para os ADRs, o que implica potencial de valorização de 92% sobre o último fechamento.

Correção pós-eleitoral empurra valuation a piso histórico

O ajuste mais severo nas ações do Bradesco começou imediatamente após o resultado do segundo turno eleitoral. Entre o dia subsequente à votação e o fechamento de 3 de novembro, os papéis ordinários recuaram 37%, contra queda de 24% do Ibovespa em dólares e retração de 26% do principal concorrente privado, Itaú (ITUB4). A correção deixou o banco negociado a 0,7 vez seu valor patrimonial — nível 30% inferior ao piso alcançado em janeiro de 2016, quando o país atravessava recessão de 3,5% do PIB, desemprego de 8,6% e Selic a 14,2%.

Para a equipe de análise do Morgan Stanley, o movimento reflete mais aversão generalizada ao setor financeiro doméstico do que deterioração efetiva dos fundamentos da instituição, cuja rentabilidade segue em dois dígitos.

Rentabilidade preservada contrasta com desconto recorde

Com ROE de 16,6%, o Bradesco mantém desempenho operacional semelhante ao de ciclos anteriores, mas sua ação passou a ser precificada, segundo o banco de investimento, a múltiplo usual para companhias de rentabilidade média de apenas 10% no mercado brasileiro. Historicamente, carteiras de instituições com ROE entre 15% e 20% costumavam ser avaliadas a 1,0 a 1,3 vez o valor patrimonial.

O estudo do Morgan Stanley utiliza a relação ROE/P (Preço sobre Valor Patrimonial) para estimar um múltiplo justo de 1,3 vez ao Bradesco, o que resultaria em preço de mercado próximo ao dobro da última cotação. A comparação direta com o Itaú amplia a magnitude do desconto: o rival é precificado a 2,0 vezes o patrimônio, criando gap de 62% — o maior da série histórica compilada pelos analistas.

Alavancas internas: eficiência e mix de crédito mais conservador

Além da possível reprecificação de mercado, o relatório mapeia vetores operacionais que podem sustentar lucros e reduzir riscos em cenário macroeconômico menos favorável. A digitalização permitiu ao Bradesco cortar cerca de um terço de suas agências em dois anos; contudo, o quadro de funcionários encolheu apenas 8% no período. Essa defasagem sinaliza margem adicional de redução de despesas nos próximos 12 a 24 meses.

Nas nove primeiras posições de 2026, as despesas totais cresceram 3%, abaixo da inflação de 5% e muito aquém da alta de 11% das receitas, indicando início de captura de eficiência. Do lado da carteira, o banco expandiu o crédito a ritmo composto de 8% ao ano desde 2024, priorizando linhas com garantia ou risco menor. Em setembro, operações lastreadas em consignado, veículos e imobiliário representavam 64% do varejo, frente a 62% dois anos antes.

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Nas modalidades sem garantia, como cartão de crédito e empréstimo pessoal, o foco recaiu em perfis de risco reduzido, estratégia que pode atenuar inadimplência se o crescimento do PIB desacelerar em 2027.

Comparativo com 2016 reforça tese de reprecificação

No auge da crise política e econômica de 2016, o Bradesco registrava ROE de 18,8% e era negociado a cerca de 1,0 vez o patrimônio. Hoje, mesmo com Selic em 13,7% — inferior aos 14,2% daquela época — e cenário de atividade ainda positivo, o múltiplo cedeu a 0,7. Para o Morgan Stanley, o descasamento sugere que o mercado precificou deterioração além do razoável, ignorando a resiliência histórica do banco em ciclos de juros altos.

Os analistas argumentam que, caso o múltiplo retorne à média de uma década, entre 1,0 e 1,2 vez P, o valor de tela das ações poderia se aproximar de R$ 24,00 (equivalente ao preço-alvo dos ADRs convertido), frente aos R$ 12,50 do último fechamento.

Conclusão Técnica

A compressão do múltiplo P/PV para o menor nível em dez anos cria assimetria favorável ao Bradesco, segundo o Morgan Stanley, sustentada por rentabilidade de 16,6%, crescimento moderado da carteira e potencial de corte de custos via digitalização. O banco de investimento mantém recomendação overweight e preço-alvo que aponta 92% de upside. A eventual materialização desse cenário depende de recuperação da confiança dos investidores no setor financeiro doméstico e da continuidade dos ganhos de eficiência ao longo de 2027.

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