Ouro supera Treasurys e assume liderança nas reservas internacionais após alta de 60% em 2025

Ouro tornou-se o principal ativo das reservas internacionais ao responder por 27% do total global no fim de 2025, superando os 22% destinados aos Treasurys norte-americanos, segundo relatório do Banco Central Europeu (BCE) divulgado nesta terça-feira (2).

Escalada de preços impulsiona participação do metal

De acordo com o estudo do BCE, a virada no ranking não decorreu de uma onda inédita de compras, mas da valorização acumulada de 60% em 2025 e 30% em 2024. Esse avanço elevou o preço do contrato para agosto na Comex, divisão de metais da New York Mercantile Exchange (Nymex), a US$ 4.519,9 por onça-troy, alta diária de 0,30%. A prata, negociada para julho, subiu 0,40%, a US$ 75,556 por onça-troy.

No mesmo período, os rendimentos dos Treasurys avançaram acompanhando as expectativas de inflação, fator que pressionou as cotações dos papéis e, por consequência, reduziu seu peso relativo nas reservas oficiais. A combinação de metal valorizado e títulos desvalorizados alterou a composição patrimonial dos bancos centrais sem necessidade de grandes movimentos de realocação.

Compras oficiais permanecem fortes, mas em ritmo moderado

Mesmo com o ganho de preço, os bancos centrais seguiram adicionando ouro aos cofres. O levantamento do BCE indica aquisições próximas de 850 toneladas em 2025, ligeira queda frente ao volume superior a 1.000 toneladas registrado em 2024. A marca mantém o apetite em patamares historicamente elevados, refletindo a busca por diversificação diante de incertezas geopolíticas e fiscais.

Entre os compradores mais ativos aparecem China, Índia, Turquia e Cazaquistão, responsáveis por parcela relevante das aquisições líquidas. Essas autoridades monetárias enxergam o metal como instrumento de proteção contra sanções financeiras, volatilidade cambial e oscilações nos preços da energia — variáveis que ganharam destaque após sucessivos choques no Oriente Médio e na Europa Oriental.

Limitações estruturais reduzem status de “ativo absoluto”

Apesar da ascensão, o BCE reforça as restrições inerentes ao ouro. O metal não gera fluxo de caixa, tem custo de custódia e liquidez inferior à dos títulos soberanos norte-americanos, cuja negociação diária supera US$ 600 bilhões. Além disso, a oferta é relativamente inelástica, pois depende de produção mineral e reciclagem, dificultando ajustes rápidos em crises sistêmicas.

Ouro supera Treasurys e assume liderança nas reservas internacionais após alta de 60% em 2025 - Imagem do artigo original

Para o TD Securities, a cotação pode recuar para a faixa de US$ 4.000 a US$ 4.200 caso o barril de petróleo retorne ao patamar de US$ 100, cenário que reduziria a demanda por proteção. A consultoria revisou para baixo suas projeções para os próximos dois trimestres, citando a manutenção do dólar forte e a precificação de uma alta adicional nos juros norte-americanos em 2026.

Geopolítica mantém metal em evidência

As negociações intermitentes entre Estados Unidos e Irã, somadas a novos confrontos entre Israel e Líbano, mantêm o prêmio de risco embutido nos ativos de refúgio. Eventos como ataques a instalações energéticas ou interrupções em rotas marítimas alimentam a percepção de escassez de oferta de commodities e, por consequência, sustentam a procura por alternativas desvinculadas de sistemas financeiros específicos.

Além dos fatores bélicos, incertezas fiscais em economias avançadas contribuem para a migração parcial de reservas. O déficit projetado dos Estados Unidos para 2026 ultrapassa US$ 1,8 trilhão, elevando a relação dívida/PIB e pressionando os yields dos Treasurys. Países com superávit em conta-corrente tendem a reduzir exposição a ativos que possam ser afetados por debates sobre teto da dívida ou eventuais paralisações governamentais.

Conclusão Técnica

O reposicionamento do ouro no topo das reservas internacionais resulta de um choque de preços combinado à valorização cambial do metal, não de uma reestruturação drástica de carteiras soberanas. Embora a participação de 27% sinalize maior confiança no ativo físico, o BCE frisa que o metal continua dependente de liquidez limitada, ausência de rendimentos e volatilidade acima da média dos títulos de dívida pública. Bancos centrais tendem a manter a estratégia de compras graduais, preservando o ouro como elemento de diversificação e proteção, mas sem substituir totalmente instrumentos que oferecem fluxo de caixa e facilidade de negociação. A expectativa para 2026 envolve ajustes marginais em função dos preços da energia, das decisões de política monetária nos Estados Unidos e da evolução de tensões geopolíticas que, juntas, definirão se o atual nível de reserva em metal precioso se estabiliza ou cede parte do espaço novamente aos ativos denominados em dólar.