Pão de Açúcar eleva prejuízo para R$ 1,3 bi no 1T26, mas plano para reduzir dívida em 74 % vira foco de analistas

Grupo Pão de Açúcar reportou prejuízo líquido de R$ 1,347 bilhão no 1T26, resultado influenciado por baixas contábeis de R$ 1,014 bilhão, ao mesmo tempo em que apresentou avanço na margem operacional e formalizou proposta de recuperação extrajudicial capaz de cortar a dívida líquida em 74 %, ponto que passou a dominar a atenção do mercado.

Resultados do 1T26 evidenciam impacto de itens não recorrentes

O balanço divulgado em 14 de maio mostra que o salto das perdas trimestrais partiu de R$ 93 milhões no 1T25 para R$ 1,347 bilhão neste ano. Desses, impairments relativos a ativos, softwares e fundo de comércio, além de um crédito de R$ 588 milhões no exterior, responderam por R$ 1,014 bilhão, sem efeito direto sobre o caixa.

Ao expurgar esses fatores, o prejuízo ajustado recua para R$ 333 milhões, mas ainda evidencia a pressão sobre o lucro. A receita líquida encolheu 8,2 %, atingindo R$ 4,3 bilhões, reflexo do encerramento de formatos menos rentáveis, como o Aliados e determinados canais de comércio eletrônico.

Por outro lado, o Ebitda ajustado avançou 12 % e chegou a R$ 458 milhões, impulsionando a margem Ebitda para 10,5 %, incremento de 1,9 ponto percentual em relação ao mesmo período do ano anterior. No setor de varejo alimentar, essa expansão é considerada relevante para sustentar fluxos de caixa futuros.

O custo financeiro continuou a deteriorar o resultado: despesas de R$ 382 milhões — alta de 20 % na comparação anual — refletiram principalmente juros elevados e desembolsos com garantias de contingências.

Estratégia de recuperação extrajudicial e metas de desalavancagem

O passivo chama mais atenção do que a performance operacional. A dívida líquida fechou o trimestre em R$ 3,2 bilhões, levando a alavancagem para 3,6 vezes Ebitda, patamar considerado arriscado para o segmento. Para enfrentar essa pressão, a diretoria liderada por Alexandre Santoro protocolou pedido de recuperação extrajudicial que pretende adequar a estrutura de capital ao porte atual do GPA.

Se homologado conforme o cronograma, o plano prevê:

Pão de Açúcar eleva prejuízo para R$ 1,3 bi no 1T26, mas plano para reduzir dívida em 74 % vira foco de analistas - Imagem do artigo original

  • Redução da dívida líquida para R$ 822 milhões (queda de 74 %).
  • Alavancagem projetada de 0,9 vezes, devolvendo flexibilidade financeira.
  • Alongamento do prazo médio do passivo de 2,1 para 6,4 anos.
  • Corte do custo da dívida de CDI + 1,8 % para CDI + 0,5 % ao ano.
  • Diminuição da dívida bruta de R$ 4,1 bilhões para R$ 1,7 bilhão.

Esses ajustes buscam criar folga de caixa e preservar a operação principal de supermercados, em meio à estratégia de fechar unidades deficitárias e vender ativos não essenciais.

Riscos e condicionantes para a continuidade operacional

Nota explicativa revisada pela Ernst & Young ressalta “incertezas relevantes” quanto à capacidade de continuidade do grupo, mesmo após a reestruturação. Entre os fatores de risco, destacam-se:

Selic elevada: manutenção de juros altos prolonga o custo da dívida remanescente.
Execução do plano: homologação judicial, adesão de credores e disciplina de capital serão cruciais.
Crescimento das vendas mesmas lojas: necessidade de recuperar tráfego e ticket médio após o fechamento de canais.
Concorrência: expansão de competidores de atacarejo e plataformas digitais continua comprimindo margens.

Analistas monitoram ainda possíveis alienações de ativos e eventuais captações de capital que possam acelerar a desalavancagem ou reforçar o capital de giro.

Conclusão Técnica

O 1T26 do Pão de Açúcar expôs um prejuízo expressivo, fortemente impactado por itens não recorrentes, mas trouxe sinais de disciplina operacional no aumento da margem Ebitda. A sobrevivência financeira depende agora da homologação e da execução estrita do plano de recuperação extrajudicial, que poderá reduzir a dívida líquida para menos de R$ 1 bilhão e restaurar a alavancagem a níveis compatíveis com o setor. Até que esses marcos se confirmem, a companhia permanece sob escrutínio constante de credores, acionistas e agências de rating.