Como um pé de moleque virou império: Barraca Amarela atinge 80 mil doces por dia

A Barraca Amarela, fundada em 1974 por José da Silva, transformou um simples pé de moleque artesanal em uma operação industrial que fabrica 80 mil unidades diárias, emprega 117 colaboradores e abastece 600 cidades brasileiras, consolidando-se como uma referência econômica para Piranguinho (MG) e para o mercado nacional de confeitos à base de amendoim.

Da pesca ao primeiro lote: a origem do negócio familiar

Tudo começou quando José da Silva, então pescador, decidiu produzir uma pequena porção de pé de moleque usando 1 kg de amendoim e 3 rapaduras. O experimento gerou cerca de 35 unidades, vendidas imediatamente em uma mercearia local. O resultado encorajou o empreendedor a oferecer o doce em campos de futebol e em viagens de ônibus para São Lourenço, município a 80 km de distância. Em valores atualizados, a renda extra atingia R$ 300 semanais, quantia relevante para complementar o orçamento familiar na década de 1970.

Após 12 anos de vendas itinerantes, o fundador ergueu a primeira barraca às margens da BR-459, rota que conecta Poços de Caldas (MG) a Lorena (SP). A escolha da cor amarela — inspiração no peixe dourado que ele costumava pescar — deu nome definitivo ao ponto de venda. Durante três décadas, a operação permaneceu 100 % familiar, com a esposa e os cinco filhos revezando-se entre a produção artesanal e o atendimento.

Formalização, vigilância sanitária e salto para a indústria

A profissionalização ganhou impulso em 2001, quando Ana Paula Veríssimo, terceira filha de Zezinho, retornou à cidade após ficar desempregada. A executiva adquiriu uma segunda barraca em 2004, expandindo a presença física da marca e criando uma pequena rede de distribuição regional. O aumento de escala trouxe a primeira notificação da vigilância sanitária, exigindo rotulagem, boas práticas de fabricação e adequação de processos.

Para atender às exigências, a família investiu em nutricionistas, cursos de gestão industrial e em maquinário específico, como batedeiras de grande porte. Sem acesso a crédito bancário, toda a estrutura foi financiada pela própria venda de doces. O esforço culminou, em 2011, na inauguração da primeira fábrica de 1,6 mil m², projetada para manter a receita tradicional e, ao mesmo tempo, ampliar a validade dos produtos via ajustes controlados de conservantes e embalagens.

Capacidade produtiva, portfólio diversificado e distribuição nacional

Hoje, a planta industrial opera quatro linhas baseadas em amendoim: pé de moleque, pé de moça, paçoca rolha e paçocão. A produção diária de 80 mil unidades abastece 14 estados, com foco no modelo B2B para padarias, empórios, lanchonetes e supermercados. O varejo direto permanece ativo nas duas lojas físicas em Piranguinho, enquanto o e-commerce segue em fase inicial de estruturação.

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Além do time de 117 funcionários, a companhia implementou sistemas próprios de controle de produção e logística para garantir rastreabilidade, padrão de qualidade e entrega dentro de prazos competitivos. Segundo a diretoria, a marca recebe solicitações frequentes de exportação, porém aguarda a expansão física e adequações regulatórias para avançar nos trâmites internacionais.

Nova planta e projeções até 2027

Em construção, a segunda fábrica terá 2,4 mil m² e previsão de conclusão na metade de 2027. Com a expansão, o parque industrial totalizará 4 mil m², possibilitando aumento de capacidade e desenvolvimento de produtos com maior prazo de validade, requisito essencial para estrear em mercados externos. A expectativa é avançar primeiro com a linha de paçocas, cujo perfil favorece exportação devido à textura mais estável e menor sensibilidade a variações de umidade.

Conclusão Técnica

A Barraca Amarela consolidou um modelo que combina tradição gastronômica e escala industrial, sustentado por investimento próprio, adequação sanitária e diversificação de canais. Com a nova fábrica, a empresa cria condições para ampliar a produção, entrar em rotas de exportação e explorar vendas digitais, mantendo o foco em produtos derivados de amendoim. O próximo ciclo estratégico envolve validar shelf life para mercados externos, integrar sistemas de comércio eletrônico e fortalecer a distribuição em estados ainda não atendidos, garantindo crescimento orgânico sem distanciar-se da identidade familiar que impulsionou o negócio ao longo de mais de cinco décadas.