Pix vira alvo nos EUA após conquistar 160 milhões de brasileiros

Brasília – O sistema de pagamentos instantâneos Pix, criado e operado pelo Banco Central (BC) desde novembro de 2020, passou a ser investigado pelo governo dos Estados Unidos após reclamações de gigantes dos cartões de crédito e de empresas de tecnologia. A ofensiva ganhou força em setembro de 2025, quando a administração de Donald Trump iniciou um inquérito sobre supostas práticas comerciais desleais do Brasil.

A disputa ocorre no momento em que o Pix supera cartões de crédito e débito como principal meio de pagamento no país. De acordo com o BC, a plataforma registrou quase 160 milhões de usuários ativos em agosto e movimentou mais de R$ 3 trilhões no mês.

Acusações de desequilíbrio competitivo

Na audiência que abriu a investigação, representantes de Visa, Mastercard, Amazon, Apple e de associações do setor alegaram que o BC exerce ao mesmo tempo os papéis de regulador e operador do sistema, o que criaria um “campo de jogo desigual”. Segundo o vice-presidente do Information Technology Industry Council, Sean Murphy, o regulador teria acesso privilegiado a dados sigilosos das empresas privadas.

Os grupos pedem que o Pix seja submetido aos mesmos requisitos de cibersegurança e governança impostos às instituições financeiras e às plataformas comerciais dos Estados Unidos.

Reação brasileira

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva refuta as acusações e afirma que o Pix promove inclusão financeira, aumenta a concorrência bancária e reduz o uso de dinheiro em espécie. O ex-presidente do BC Roberto Campos Neto, que liderava a autarquia na criação do sistema, argumenta que não há cobrança de tarifas à população e que o banco gasta recursos próprios na manutenção da infraestrutura.

Durante a mesma audiência, o diplomata Roberto Azevedo, consultor da Confederação Nacional da Indústria, destacou que empresas americanas também se beneficiam do avanço dos pagamentos instantâneos no varejo e no comércio eletrônico brasileiros.

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Contexto político e econômico

A investigação ocorre em paralelo a tarifas de 50% impostas por Washington sobre parte das exportações brasileiras, anunciadas em julho. Analistas em Brasília enxergam a medida como instrumento de pressão adicional depois de o ex-presidente Jair Bolsonaro — aliado político de Trump — ter sido condenado por tentativa de golpe.

Nos bastidores, fontes do governo federal avaliam que o inquérito pode durar de seis a 12 meses e servir como retaliação caso as tarifas sejam derrubadas nos tribunais internacionais.

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Imagem: Bloomberg via investnews.com.br

Impacto no mercado de cartões

Consultorias de pagamentos calculam que cada ponto percentual migrado dos cartões de crédito para o Pix representa perda anual de US$ 200 milhões a US$ 400 milhões em taxas. A pressão tende a crescer com novas funcionalidades, como Pix Parcelado e Pix Automático, que permitem dividir compras e efetuar cobranças recorrentes, encostando nos serviços tradicionalmente oferecidos pelos plásticos.

Ainda assim, a pesquisa de métodos de pagamento do BC mostra que a preferência pelo crédito subiu de 44,5% em 2021 para 51,6% em 2025, impulsionada por benefícios como milhas aéreas e acesso a salas VIP em aeroportos. O número de cartões emitidos saltou de 239 milhões em 2020 para 510 milhões em 2024.

Enquanto o processo investigativo avança nos EUA, o Palácio do Planalto aposta no sucesso doméstico do Pix para reforçar o discurso de soberania tecnológica e ampliar a popularidade de Lula às vésperas das eleições norte-americanas do próximo ano.

Com informações de InvestNews

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