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Preconceito afasta pessoas trans de exames que detectam câncer precocemente

    O analista de mídias sociais Erick Venceslau descobriu em 2024 um nódulo no seio que, após exames, foi confirmado como um câncer de mama agressivo. O diagnóstico deu impulso para que ele assumisse publicamente a identidade de homem trans, mas também escancarou barreiras enfrentadas por pessoas trans no sistema de saúde.

    Erick relata que evitava consultas de rotina por medo de discriminação. Quando buscou atendimento, o tumor já media três centímetros e dobrou de tamanho em poucas semanas. “O sistema não está preparado para a gente. Já sofri violência em consultas ginecológicas apenas por ser lésbica; imagine sendo um homem trans”, afirma.

    Estigma no atendimento

    A presidente regional da Sociedade Brasileira de Mastologia no Rio de Janeiro, Maria Julia Calas, confirma a recorrência desse tipo de relato. “O preconceito pode vir desde a recepção até o consultório médico. Isso faz com que muitos adiem exames ou abandonem o tratamento”, diz.

    Para combater a desinformação, Maria Julia e a oncologista Sabrina Chagas lançam neste mês o guia “Nosso Papo Colorido”, voltado a pacientes LGBTQIAPN+. Sabrina destaca que raça, gênero e etnia ainda são negligenciados em protocolos oncológicos, ampliando as barreiras para populações marginalizadas.

    Rastreamento adequado

    As especialistas lembram que:

    • Mulheres trans continuam suscetíveis ao câncer de próstata; a dosagem de PSA pode não ser suficiente após bloqueio hormonal, e o toque retal precisa ser individualizado.
    • Homens trans que não passaram por mastectomia devem realizar mamografia; mulheres trans com glândulas mamárias induzidas por hormônios também precisam do exame.
    • Pessoas com útero, independentemente da identidade de gênero, devem fazer rastreio de HPV, principal causa de câncer de colo de útero.

    A Sociedade Brasileira de Mastologia prepara diretrizes específicas para rastreamento de câncer de mama em pessoas trans, em parceria com o Colégio Brasileiro de Radiologia e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. O documento deve ser divulgado no início de 2026.

    Importância do acolhimento

    Erick conseguiu remover completamente as mamas durante a cirurgia, mas ainda aguarda definições sobre a terapia hormonal masculina. “Perguntei ao oncologista se poderia usar hormônio e ouvi: ‘Não sei’. Não sou o primeiro homem trans com câncer de mama; já era para existirem estudos”, critica.

    Preconceito afasta pessoas trans de exames que detectam câncer precocemente - Imagem do artigo original

    Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br

    Ele atribui parte do sucesso no tratamento ao apoio da esposa e de desconhecidos nas redes sociais. “Esse suporte foi essencial para que eu continuasse”, conclui.

    Para as médicas, a adoção imediata de um atendimento inclusivo — que respeite nome social, pronome e especificidades anatômicas — pode evitar diagnósticos tardios. “Se o paciente é maltratado, não volta. E sem retorno, não há adesão ao tratamento”, reforça Sabrina.

    Garantir um ambiente neutro e profissionais capacitados é apontado como passo fundamental para reduzir a mortalidade por câncer entre pessoas trans.

    Quer entender mais sobre iniciativas de inclusão que já impactam o mercado e a economia? Acesse a nossa seção de Economia e acompanhe as novidades.

    Com informações de Agência Brasil