O protocolo do Plano de Recuperação Extrajudicial da Raízen, entregue em 5 de junho de 2026 à 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, busca reestruturar R$ 64,7 bilhões em dívidas mediante conversão parcial de passivos em ações, emissão de novos títulos e injeção de capital de parceiros estratégicos, já contando com o apoio formal de 75,45 % dos credores.
Arquitetura do endividamento e principais instrumentos financeiros
A documentação encaminhada pela companhia detalha que 45 % do passivo elegível será convertido em participação acionária, reduzindo a pressão sobre o fluxo de caixa operacional. Os 55 % remanescentes serão objeto de substituição, refinanciamento ou aditamento por meio da emissão de novos títulos de dívida com prazos estendidos e condições alinhadas à capacidade de pagamento da empresa.
De acordo com o plano, a conversão acionária terá como base a cotação média ponderada das ações RAIZ4 em período de referência determinado nos anexos do pedido judicial. Essa medida visa mitigar volatilidades abruptas e garantir tratamento equânime aos credores institucionais, que englobam bancos comerciais, detentores de títulos locais e investidores em bonds internacionais.
O cronograma de liquidação estabelece janelas específicas para a oferta dos novos papéis, condicionadas à homologação judicial e ao cumprimento de cláusulas precedentes, entre elas a preservação de índices de cobertura de serviço da dívida e de alavancagem máxima pré-definidos.
Captação de recursos: aporte da Shell e participação da Aguassanta
Para sustentar a recomposição do caixa, o plano prevê a entrada imediata de R$ 3,5 bilhões provenientes da Shell, sócia estratégica no controle da empresa. Adicionalmente, há previsão de um aporte contingente de até R$ 500 milhões pela Aguassanta Participações, veículo ligado à família do empresário Rubens Ometto, controladora da Cosan S.A.
Os novos recursos destinam-se prioritariamente ao abatimento de passivos de curto prazo, reforço do capital de giro e manutenção do programa de investimentos em biocombustíveis e distribuição de combustíveis. Segundo o fato relevante, a empresa continuará avaliando desinvestimentos não estratégicos e reorganizações societárias para acelerar a desalavancagem.
Na frente de alienações, a companhia já confirmou a venda de operações na Argentina por R$ 7,2 bilhões, valor que será direcionado para liquidação de dívidas em moeda estrangeira e fortalecimento de reservas em real.
Adesão de credores e trâmites judiciais
A aceitação prévia de 75,45 % dos credores, distribuídos em três classes — bancos, títulos locais e títulos internacionais —, supera o quórum mínimo exigido pela Lei 11.101/2005 para a homologação de recuperação extrajudicial. O suporte majoritário reduz a probabilidade de contestações que poderiam alongar o processo.
Após o protocolo, inicia-se o prazo legal de 30 dias para manifestações de eventuais opt-outs ou impugnações. Caso não haja objeções substanciais, o magistrado responsável poderá homologar o acordo, conferindo efeito vinculante aos credores dissidentes e permitindo a execução das etapas financeiras descritas.

A Justiça poderá, entretanto, exigir ajustes técnicos nas cláusulas de equalização de garantias ou de ranking de pagamentos. A companhia declarou, em anexo, ter constituído garantias fiduciárias suficientes para assegurar a cobertura dos novos títulos, incluindo recebíveis de exportação e participações societárias em ativos de infraestrutura.
Reestruturação operacional e metas de sustentabilidade financeira
Paralelamente à renegociação de passivos, o plano contém metas formais de ebitda ajustado, redução de custos operacionais e limite de capital expenditures. Entre 2026 e 2028, a empresa pretende alcançar relação dívida líquida/ebitda inferior a 3,0 vezes, patamar compatível com o rating corporativo histórico anterior à expansão acelerada de investimentos em etanol de segunda geração e logística portuária.
Os desinvestimentos anunciados, combinados a ganhos de eficiência, foram projetados para gerar fluxo de caixa livre adicional de R$ 4 bilhões no triênio, montante a ser aplicado prioritariamente em amortizações extraordinárias.
O conselho de administração estabeleceu ainda a suspensão temporária de dividendos até que a alavancagem atinja o teto de 2,5 vezes, salvaguardando liquidez e cumprimento integral das covenants pactuadas com credores.
Conclusão técnica
Com o protocolo do plano, a Raízen avança para a fase de homologação, etapa determinante para formalizar a conversão de parte do passivo em capital e emitir títulos substitutos. A adesão de mais de três quartos dos credores, somada à capitalização da Shell e ao potencial aporte da Aguassanta Participações, posiciona a companhia para reequilibrar sua estrutura financeira ao longo dos próximos dois anos. A homologação, se concedida sem impugnações relevantes, habilitará a empresa a executar o cronograma de desalavancagem e manter o foco em ganhos operacionais e desinvestimentos complementares já delineados.



