Investidores passaram a exigir rendimento adicional para manter recursos no Brasil depois que JPMorgan cortou a recomendação para ativos locais e a MSCI removeu papéis da Stone de seu índice; em meio ao início oficial da campanha de 2026, o real recuou 2,5% na semana e o dólar superou R$ 5,23, sinalizando o maior prêmio eleitoral desde 2022.
Sinais de mudança no apetite ao risco brasileiro
Até o fim do primeiro semestre, grandes gestores internacionais mantinham posições compradas no real, respaldados por diferencial de juros elevado e fluxo de commodities. O cenário inverteu-se quando o JPMorgan rebaixou sua visão de “overweight” para “neutral” em ativos do país em agosto/26. Poucos dias depois, a MSCI excluiu as ações da Stone de seu índice de referência para o Brasil, reduzindo o peso relativo do mercado doméstico em carteiras globais.
Esses eventos funcionaram como gatilho para fundos globais reavaliarem risco, segundo Luca Girardi, analista da Nomad. O ajuste incluiu venda de moeda brasileira e rotação para pares emergentes considerados menos expostos a turbulências políticas imediatas.
Formação do prêmio eleitoral nas cotações
Com a aproximação do pleito, analistas incorporam ao câmbio um componente adicional de risco — o chamado prêmio eleitoral. A principal incerteza recai sobre a viabilidade de medidas de consolidação fiscal no próximo mandato. Caso o governo eleito encontre resistência para aprovar reformas, a trajetória da dívida pode se deteriorar, exigindo juros mais altos e depreciação cambial.
A percepção de fragilidade se traduz em demanda maior por moeda forte. Entre 12 e 16 de agosto, o dólar acumulou cinco sessões de alta consecutivas, atingindo R$ 5,23 — nível não observado desde o início de julho. Durante o mesmo intervalo, o real foi a divisa de pior desempenho dentre as moedas mais líquidas monitoradas pela Bloomberg, mesmo com o índice DXY recuando 0,4%.
Comparativo de desempenho com outros emergentes
Na mesma semana em que o real cedeu 2,5%, o peso mexicano avançou 0,60% e o peso colombiano subiu 0,60%. Já o won sul-coreano permaneceu praticamente estável, com leve ganho de 0,06%. O descolamento evidencia que a pressão sobre a moeda brasileira decorre de fatores domésticos, e não de uma aversão generalizada a risco em mercados emergentes.
Relatórios de bancos como Citigroup e Bank of America apontam que, embora posições líquidas ainda indiquem viés comprado em real, o ritmo de desmontagem cresce à medida que a corrida eleitoral ganha pauta econômica mais detalhada.
Cronograma político e impactos esperados
Os partidos têm até 15 de agosto para registrar candidaturas, e a campanha inicia oficialmente em 16 de agosto. A partir desse marco, debates sobre teto de gastos, reformulação tributária e programas sociais tendem a dominar a narrativa. Cada proposta traz implicações distintas para o saldo primário e para a dinâmica de dívida/PIB.
A equipe de análise da Rico destaca que o dólar ultrapassou a média móvel de 200 dias, situada em torno de R$ 5,20. Tecnicamente, o rompimento sugere continuidade da tendência de alta caso o fluxo estrangeiro permaneça negativo. Para conter a volatilidade, o Banco Central dispõe de swaps cambiais e reservas internacionais acima de US$ 350 bilhões, mas a autarquia costuma atuar apenas em episódios de disfuncionalidade de mercado.
Conclusão Técnica
O rebaixamento de bancos internacionais, a exclusão de ativos de índices globais e a proximidade do ciclo eleitoral criaram um ambiente de maior cautela para o real. A moeda brasileira registrou a pior performance entre emergentes relevantes na semana, refletindo a inclusão do prêmio eleitoral nas cotações. Enquanto o cronograma político se desenrola, a direção do câmbio dependerá da clareza das propostas fiscais e da capacidade do próximo governo em assegurar sustentabilidade das contas públicas. Até que esses vetores se definam, relatórios indicam manutenção de volatilidade elevada e possibilidade de novas realizações sobre o real, mantendo o dólar acima de R$ 5,20.



