Caldas (MG) – Três décadas após a interrupção das atividades, a antiga mina de urânio das Indústrias Nucleares do Brasil (INB) continua sem prazo para ser desmantelada. O motivo é o impasse sobre o destino de 11.334 toneladas de “Torta II”, resíduo radioativo enviado de São Paulo para o Sul de Minas nos anos 1990.
A substância – um concentrado com cerca de 50% de tório e 1% de urânio – foi gerada entre as décadas de 1950 e 1980, durante o tratamento químico de monazita na extinta Nuclemon, na capital paulista. Desde então, permanece armazenada em galpões, bombonas e silos de concreto na área de 18 quilômetros quadrados da unidade mineira.
Licença inicial obtida, mas desmonte depende de solução
Em janeiro deste ano, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) emitiu a primeira licença ambiental para o processo de descomissionamento. A etapa seguinte, porém, só poderá avançar quando a INB definir se a Torta II será vendida, transferida para outra instalação licenciada ou definitivamente confinada no próprio local.
De acordo com a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), o material está hoje em condições consideradas adequadas de segurança, distribuído em 19,6 mil tambores de 200 litros, quantidade equivalente de bombonas de 100 litros e quatro silos cobertos. Nos últimos anos, os recipientes deteriorados receberam sobre-embalagens, e os galpões passaram por reparos estruturais.
Pressão da comunidade
Moradores e ambientalistas de Caldas temem que possíveis falhas de armazenamento afetem cursos d’água vizinhos e a Área de Proteção Ambiental Pedra Branca. A prefeitura afirma que a estatal cumpre os compromissos firmados, mas o receio persiste desde que o resíduo chegou à região.
Desafio global para rejeitos nucleares
A pesquisadora Nelcy Della Santina Mohallem, da UFMG, ressalta que o Brasil ainda não possui depósito definitivo para rejeitos radioativos. Outros países enfrentam dilemas semelhantes: a Finlândia iniciou o primeiro repositório geológico profundo, enquanto Alemanha e Estados Unidos seguem em busca de locais permanentes.
No Brasil, o governo federal planeja o Centena – Centro Tecnológico Nuclear e Ambiental –, projetado para começar a operar entre 2028 e 2029. Mesmo assim, a Torta II pode ficar de fora porque seu teor de terras raras e radioisótopos desperta interesse comercial. A ANSN incentiva soluções que reintegrem o material à cadeia produtiva.
Imagem: g1.globo.com
Outros passivos da mina
Além da Torta II, o descomissionamento envolve 15 milhões de metros cúbicos de rochas estocadas, barragens de rejeitos – uma delas recentemente rebaixada para nível de alerta – e a água ácida acumulada na cava da antiga extração. O projeto completo prevê entre 20 e 30 anos de obras e orçamento estimado em R$ 688 milhões.
A legislação específica para o desmonte de minas de urânio foi criada apenas em 2022, retardando o processo. Enquanto isso, a INB mantém ações de controle ambiental, como tratamento de efluentes e monitoramento radiológico.
Para quem vive no entorno, o início do descomissionamento representa um alívio, embora a insegurança permaneça até que haja definição sobre todos os resíduos. A fase final pretende liberar a área para uso restrito ou reaproveitamento controlado, decisão que dependerá de novos pareceres ambientais e nucleares.
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Com informações de g1



