Em 2023, a varejista de moda rápida Shein prometeu investir US$ 150 milhões para fazer do Brasil o centro de produção da empresa na América Latina, criando 100 mil empregos por meio de parcerias com 2 mil fábricas locais até 2026. Um ano depois, o projeto perdeu fôlego: ex-fornecedores, dirigentes setoriais e sindicatos relatam que as metas ficaram longe de ser alcançadas.
Segundo a companhia, 336 fábricas brasileiras aderiram ao programa até dezembro de 2023. Desde então, o avanço estagnou. Confecções ouvidas em 12 estados afirmam ter encerrado contratos porque a Shein exigia cortes de preços de até 30% e prazos de entrega mais curtos do que podiam cumprir.
Pressão de custos
Januncio Nóbrega de Azevedo, dono da Nobre Confecções, no Rio Grande do Norte, disse ter trabalhado seis meses para a plataforma antes de abandonar o acordo. Para chegar ao preço pedido, teria de usar tecidos mais baratos. “Não consigo atender ao modelo de negócio deles”, afirmou.
José Medeiros de Araújo, da Zaja, em Cerro Corá (RN), relatou situação semelhante: após um pedido piloto, a Shein reduziu volumes e baixou o preço de uma saia de R$ 50 para R$ 38. O empresário desistiu de ampliar a linha de produção que criaria 50 vagas.
Dificuldades logísticas e regulatórias
Fontes do setor apontam obstáculos típicos do mercado brasileiro, como a localização interiorana de parte das fábricas, infraestrutura de transporte limitada e legislação trabalhista rígida, incluindo controle de jornada e carga tributária elevada.
Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), avaliou que “trabalhar no Brasil é diferente de trabalhar na China”, onde a Shein opera cerca de 7 mil fábricas com uma cadeia de suprimentos altamente integrada.
Em nota, a empresa admitiu que “a produção no Brasil exigiu tempo para amadurecer” e que as diferenças de infraestrutura tornaram o processo “mais lento e desafiador”. A Shein disse adotar agora uma abordagem “mais seletiva” com fornecedores considerados mais capacitados, mas não informou o número atual de parceiros.
Único fornecedor ativo
Apuração da Reuters identificou apenas a GB Manufacturing, no Espírito Santo, ainda produzindo para a varejista. O proprietário, Marco Britto, destacou que a Shein paga em 30 dias, ante até 90 dias de outros clientes, e considera o relacionamento “menos burocrático”.
Imagem: Justin Chin via valor.globo.com
Taxa das Blusinhas
Em 2024, o governo brasileiro instituiu alíquota de 20% sobre compras on-line de até US$ 50 — antes isentas — para conter o avanço de importações de peças de baixo valor. A medida, apelidada de “Taxa das Blusinhas”, aumentou a urgência da Shein em produzir localmente, mas não foi suficiente para destravar as negociações.
Brasil segue mercado-chave
Apesar dos impasses, o país continua estratégico: estimativas da Coresight Research apontam que o Brasil respondeu por US$ 3,5 bilhões das vendas globais de US$ 48,6 bilhões da Shein em 2025, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.
A companhia também afirma apoiar mais de 45 mil empreendedores brasileiros por meio de seu marketplace, modelo que, segundo o gerente-geral no Brasil, Felipe Feistler, demanda menos adaptação do que a produção industrial.
Enquanto ajusta o plano fabril, a varejista de origem chinesa se prepara para abrir capital em Hong Kong ainda este ano.
Com informações de Valor Econômico
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Resumo: a Shein reduz o ritmo do projeto industrial no Brasil após impasses sobre preço, prazo e logística. Continue lendo nossos conteúdos e atualize-se sobre as próximas estratégias das gigantes do varejo.



