Super El Niño ameaça crescimento do Brasil e pressiona inflação na América Latina, aponta Goldman Sachs

O Goldman Sachs calcula que o próximo episódio de super El Niño poderá subtrair até 1,21 ponto percentual do Produto Interno Bruto brasileiro e acelerar a inflação de alimentos na região em 1,40 p.p. ao longo de quatro trimestres, configurando o choque climático mais severo deste século para as principais economias latino-americanas.

Fenômeno climático ganha intensidade e altera projeções macroeconômicas

Os satélites que monitoram a temperatura da superfície do oceano Pacífico registram aquecimento acima da média histórica, condição que caracteriza o El Niño. Quando essa anomalia ultrapassa determinados limiares, climatologistas classificam o evento como super El Niño. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, a probabilidade de um episódio muito forte entre o quarto trimestre de 2026 e o início de 2027 é de 98 %.

A divisão de pesquisa econômica do Goldman Sachs avaliou impactos potenciais sobre sete países — Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México e Peru — a partir de duas décadas de dados climáticos, agrícolas e financeiros. O modelo cruzou variações do Índice Oceânico Niño 3.4 com desempenho de PIB, inflação e juros de política monetária, gerando estimativas para o conjunto denominado LA7 e para o subgrupo LA5 (excluídos Equador e Peru).

No cenário-base, o crescimento médio do LA7 recua 0,36 p.p. após o início do fenômeno, enquanto a inflação cheia avança 1,04 p.p.. Essa combinação traduz o chamado choque de oferta: produção menor e preços maiores simultaneamente.

Mapa de vencedores e perdedores: Brasil entre os mais penalizados

Os efeitos projetados distribuem-se de forma assimétrica. O Equador lidera o bloco dos mais afetados, com retração de 1,85 p.p. no PIB, pressão associada à forte dependência hidrelétrica e à exposição a enchentes costeiras. Logo em seguida surge o Brasil, cuja perda estimada é de 1,21 p.p.. A matriz elétrica brasileira, composta por aproximadamente 50 % de geração hídrica, torna o país sensível a reservatórios baixos e consequentes restrições energéticas.

No extremo oposto, a Argentina desponta como exceção positiva. O relatório projeta expansão de 2,57 p.p., favorecida por condições hídricas que podem impulsionar a produção agrícola de grãos, aliviando o balanço de pagamentos e a pressão cambial no ano eleitoral de 2027.

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Em termos de preços, a inflação de alimentos reage com maior vigor. Brasil, Colômbia e Chile apresentam aceleração estatisticamente relevante, ao passo que México e Peru exibem variações marginais. Para o Equador, o impacto nos preços é mitigado por subsídios e por um regime de câmbio dolarizado.

Reação dos bancos centrais e implicações para investimentos

Apesar da pressão inflacionária, a resposta média das taxas de curto prazo do LA5 é limitada a 0,18 p.p., variação considerada não significativa em grande parte dos casos. O Copom, no Brasil, e o Banco da República, na Colômbia, tendem a adotar postura mais cautelosa devido à inflação já elevada e expectativas parcialmente desancoradas. Chile, México e Peru devem priorizar a manutenção da credibilidade da política monetária, olhando “através” do choque climático sempre que as expectativas permanecerem estáveis.

Para o investidor, o estudo sinaliza a combinação adversa de crescimento mais fraco e inflação mais alta no Brasil — cenário que costuma depreciar ativos de renda fixa prefixados e pressionar a curva de juros futuros. Moedas sensíveis a commodities agrícolas, como real e peso colombiano, tendem a volatilidade adicional durante o período crítico do fenômeno. Por outro lado, a Argentina pode vivenciar melhora nos termos de troca caso a colheita seja efetivamente reforçada.

Conclusão técnica: monitoramento climático entra na agenda macro da região

Com a confirmação quase certa de um super El Niño, a América Latina enfrenta um teste de resiliência que combina restrição hídrica, pressão sobre alimentos e risco energético. As estimativas do Goldman Sachs — embora reconhecidamente sujeitas a ruído estatístico por se apoiarem em apenas oito episódios desde 2000 — oferecem um balizamento para autoridades fiscais, bancos centrais e agentes de mercado. A próxima etapa inclui o acompanhamento de previsões pluviométricas entre novembro e março, período crucial para a formação de safras e para os níveis dos reservatórios. Caso a intensidade do fenômeno se confirme, decisões de política monetária poderão depender mais da ancoragem das expectativas do que de ajustes automáticos nos juros, enquanto investidores deverão reavaliar exposição setorial e geográfica à luz de um choque climático que, desta vez, transcende estatísticas históricas recentes.

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