Decisões simultâneas do Comitê de Política Monetária (Copom) e do Federal Reserve (Fed) concentram hoje a atenção de investidores globais, que ainda calibram riscos provenientes da crise institucional no Supremo Tribunal Federal (STF), da escalada geopolítica no Oriente Médio e dos extremos climáticos no Brasil.
Contexto internacional: Fed no centro do radar
O Federal Reserve anuncia nesta quarta-feira, 16 de setembro de 2026, a nova faixa para a taxa básica norte-americana. A expectativa majoritária em Wall Street é de alta de 0,25 ponto percentual, movimento justificado pela persistência inflacionária ligada ao salto de 17% no preço médio do barril de petróleo Brent desde o início do conflito entre Estados Unidos e Irã. Dados preliminares de vendas do varejo e o índice de confiança das construtoras, divulgados horas antes do comunicado, sinalizam demanda ainda aquecida.
Mesmo com o recuo pontual do Brent para a casa de US$ 84, analistas consideram que a autoridade monetária precisa reafirmar compromisso com a convergência da meta de 2% ao ano. Uma elevação hoje ampliaria o intervalo dos Fed Funds para 5,75%-6,00%, patamar mais restritivo desde 2001.
Na Ásia, bolsas encerraram o pregão em alta – destaque para o Nikkei 225, que avançou 1,3% –, acompanhando os futuros de Nova York, todos positivos antes da decisão em Washington. Na Europa, o clima também é de otimismo moderado à espera do posicionamento do Banco da Inglaterra (BoE), previsto para amanhã.
Pressões domésticas: inflação climática e Copom
No Brasil, o Copom define a nova Selic poucas horas após o Fed. O mercado divide-se entre manutenção e corte residual de 0,25 ponto, cenário influenciado por quatro vetores:
- Clima: chuvas intensas no Sul, Sudeste e Centro-Oeste provocaram alagamentos, deslizamentos e perdas agrícolas relevantes. O custo de grãos tende a pressionar o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) dos próximos trimestres.
- Energia: a alta acumulada na gasolina e no diesel, correlata ao choque do petróleo, adiciona componente inercial aos índices de preços.
- Câmbio: a moeda brasileira opera próxima de R$ 5,28 por dólar, sustentada por fluxo externo instável e incerteza eleitoral.
- Expectativas: projeções compiladas pela Pesquisa Focus apontam IPCA de 4,3% em 2026, acima do centro da meta de 3%.
Em entrevista ao portal, o economista-chefe do Bradesco Asset, Marcelo Cirne de Toledo, avaliou que o Banco Central deve privilegiar a ancoragem das expectativas, sinalizando ritmo cauteloso de flexibilização até o fim do ano.
Risco institucional: julgamento no STF e efeitos nos ativos
O Supremo Tribunal Federal retomou ontem processo envolvendo possível investigação sobre o ministro Alexandre de Moraes. Sem deliberação definitiva, o ministro Flávio Dino pediu vista, suspendendo o julgamento por até 90 dias. A indefinição coincide com período de pré-campanha, intensificando a volatilidade dos ativos ligados ao ciclo político.
Relatório de gestores estrangeiros com US$ 90 bilhões sob administração, obtido pela reportagem, aponta que papéis brasileiros permanecem descontados, mas a crise no Judiciário e a disputa nas urnas desencorajam aumentos substanciais de posição.
Temperatura dos mercados: bolsas, câmbio e commodities
B3: o Ibovespa futuro opera em leve alta de 0,4%, repercutindo sinais positivos do exterior. Setores de commodities lideram a recuperação, beneficiados pelo alívio marginal no petróleo.
Câmbio: o dólar perde 0,2% ante o real no início dos negócios; os contratos de swap cambial precificam prêmio adicional de risco de 65 pontos-base na ponta longa.
Renda fixa: a curva de juros embute probabilidade de 55% para corte de 0,25 ponto na Selic hoje, mas aponta taxa terminal de 9,25% ao ano em 2027, refletindo persistência de prêmios de risco.
Commodities: além do recuo do Brent, o milho na CBOT sobe 1,1% diante dos estragos causados pelas chuvas no Brasil, reforçando a pressão inflacionária sobre alimentos.
Conclusão técnica
A convergência das reuniões de Copom e Fed nesta Super Quarta definirá o novo patamar de custo de capital nas duas maiores economias do continente americano. Qualquer surpresa altista por parte do Fed tende a fortalecer o dólar globalmente e impor restrições adicionais ao espaço de corte da Selic. No front político, a pausa no julgamento do STF adiciona horizonte de incerteza que pode reprecificar ativos domésticos nas próximas semanas. Investidores monitoram ainda o comportamento do petróleo e dos preços agrícolas, variáveis decisivas para o andamento dos índices de inflação e, por consequência, para a trajetória dos juros até o encerramento de 2026.



