Um vídeo criado por inteligência artificial e divulgado por perfis diplomáticos do Irã mostra o Cristo Redentor em combate contra a Estátua da Liberdade, simbolizando a escalada de críticas de Teerã aos Estados Unidos e ampliando a visibilidade do Brasil no conflito narrativo iniciado após a proposta de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros anunciada em 1º de junho de 2026.
Origem e conteúdo do vídeo
A animação, publicada pelo perfil oficial da Embaixada do Irã na Tunísia na rede social X, foi compartilhada na tarde de sexta-feira, 1º de junho. Nas imagens geradas por IA, dois dos mais reconhecidos cartões-postais mundiais — o Cristo Redentor, erguido em 1931 no Rio de Janeiro, e a Estátua da Liberdade, inaugurada em 1886 em Nova York — travam um duelo físico em cenário estilizado. O vídeo encerra com a frase “One front. One fight.”, sugerindo a união de nações críticas à postura norte-americana.
Desde o início de 2026, contas ligadas ao governo iraniano têm adotado vídeos sintéticos para rebater declarações de Washington. Conteúdos anteriores já retrataram um avatar do presidente Donald Trump apertando um botão de lançamento de bombas enquanto carrega uma pasta marcada “Epstein”, em insinuação a controvérsias envolvendo o líder republicano. A peça mais recente insere o Brasil no roteiro, aproveitando o noticiário sobre tarifas para ampliar o alcance da mensagem iraniana.
Contexto das tensões comerciais e diplomáticas
O estopim para a menção direta ao Brasil ocorreu quando o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) concluiu investigação preliminar acusando o país sul-americano de “práticas desleais” em temas como o sistema de pagamentos instantâneos Pix, aplicação de leis anticorrupção e proteção de propriedade intelectual. Como resposta, o governo norte-americano propôs sobretaxa de 25% sobre uma lista ampla de exportações brasileiras.
A relação bilateral entre Teerã e Washington já se encontrava deteriorada por impasses envolvendo o programa nuclear iraniano e sanções econômicas. Ao inserir o Cristo Redentor no vídeo, a diplomacia iraniana mira dois alvos simultaneamente: reforça a crítica aos EUA e sinaliza solidariedade ao Brasil, país que, embora não esteja oficialmente alinhado ao Irã, passou a enfrentar pressão comercial vinda da Casa Branca.
Analistas observam que a iniciativa segue o padrão de “diplomacia digital” adotado pelo Irã, que utiliza sátira para ganhar atenção viral e engajar públicos fora do Oriente Médio. Ao contrapor ícones turísticos, a produção explora o impacto emocional dos monumentos e, ao mesmo tempo, evita linguagem bélica direta que poderia gerar retaliação nas plataformas.

Repercussões para o Brasil
Embora o Itamaraty não tenha comentado oficialmente o vídeo, fontes do Ministério das Relações Exteriores indicam monitoramento do conteúdo para avaliar possíveis efeitos sobre as negociações em andamento com os EUA. Internamente, a estratégia é manter o diálogo técnico com o USTR enquanto se articula apoio de parceiros como a União Europeia para suavizar a proposta tarifária.
Setores potencialmente afetados incluem:
- Complexo cafeeiro: responsável por US$ 6,4 bilhões em exportações aos EUA em 2025.
- Proteína bovina: participação de 18% nas vendas externas para o mercado norte-americano.
- Aeronáutico: encomendas de jatos regionais da Embraer estimadas em US$ 1,1 bilhão até 2028.
Apesar de o café, a carne e as aeronaves terem sido retirados da lista preliminar de bens alvo de sobretaxa, entidades empresariais temem o efeito indireto sobre cadeias de suprimentos e valorização cambial. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) calcula que a adoção integral das tarifas poderia reduzir o PIB brasileiro em até 0,2 ponto percentual em 2027.
Conclusão Técnica
O uso de inteligência artificial por órgãos iranianos para contrapor políticas dos Estados Unidos ganhou novo capítulo ao envolver o Brasil como símbolo de país impactado por possíveis sanções comerciais. Enquanto o Itamaraty preserva posição neutra, o vídeo amplia o alcance internacional das críticas de Teerã e pressiona Washington em mais de um front narrativo. No campo prático, o processo de investigação do USTR segue rito legal com audiência pública prevista para julho de 2026, passo decisivo antes da eventual implementação das tarifas de 25%. A evolução desse cenário, tanto na esfera diplomática quanto na comercial, continuará a ser monitorada por governos e mercados, sem previsão de desdobramentos imediatos sobre acordos formais entre Brasil e Irã.



