iFood leva Keeta à Justiça por suposta espionagem corporativa e concorrência desleal

iFood protocolou ação na 1ª Vara Empresarial de São Paulo contra a startup de entregas Keeta e sua controladora, a chinesa Meituan, alegando prática de concorrência desleal e espionagem empresarial que teria ocorrido entre 2024 e 2025, período em que a rival preparava sua estreia no Brasil. O processo pede indenização de R$ 1 milhão por danos morais, ressarcimento material a apurar e reconhecimento de infração ao artigo 195 da Lei de Propriedade Industrial.

Origem da disputa e argumentos apresentados pelo iFood

De acordo com a petição inicial, mais de 30 consultorias — muitas delas ligadas à China — teriam abordado cerca de 140 funcionários do iFood oferecendo “conversas remuneradas” para colher informações estratégicas. As propostas incluíam pagamentos considerados “expressivos”, cujo montante não foi revelado nos autos, em troca de detalhes sobre operações, logística e modelo de negócios da líder brasileira de delivery.

O iFood afirma ter obtido documentos e e-mails que conectam alguns consultores à Meituan, além de registros de reunião envolvendo um colaborador interno. Para a empresa, tal conduta extrapola a prática de pesquisas de mercado e se enquadra como crime de concorrência desleal, uma vez que mira informações sensíveis protegidas por cláusulas de confidencialidade.

Na ação, a companhia brasileira solicita também liminar para proibir a Keeta de continuar quaisquer tentativas de obtenção de dados e para preservar provas em posse das rés. A argumentação cita precedentes do Tribunal de Justiça de São Paulo envolvendo captação ilícita de segredos comerciais em setores de tecnologia.

Posicionamento da Keeta e investigações em curso

Procurada pela reportagem, a Keeta declarou não ter sido oficialmente notificada e negou contratar terceiros para captar informações sigilosas de concorrentes. Segundo nota enviada, a plataforma “segue rigorosamente a Lei Geral de Proteção de Dados e adota políticas internas robustas de governança de dados”.

A empresa também informou que a Polícia Civil de São Paulo abriu inquérito referente a supostos ataques de espionagem que a própria Keeta teria sofrido após lançar operações-piloto em Santos, no litoral paulista. Conforme o relato, ao menos oito restaurantes parceiros foram visitados por indivíduos se passando por funcionários da marca, portando credenciais falsas e tentando coletar dados sobre pedidos, formas de pagamento, taxas de comissão e rotinas de integração.

No comunicado, a Keeta enfatizou seu “compromisso com ambiente de concorrência livre e justa” e afirmou estar “à disposição das autoridades para esclarecer qualquer dúvida”. A Meituan, por sua vez, não se manifestou até o fechamento desta matéria.

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Cenário regulatório e impacto no mercado brasileiro de delivery

O litígio ocorre em meio à crescente disputa por participação no setor de food delivery nacional, estimado em R$ 80 bilhões em 2025, segundo dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). A entrada de players internacionais, como Keeta, vem pressionando margens e acelerando investimentos em logística de última milha e inteligência de dados.

Analistas jurídicos destacam que acusações fundamentadas em espionagem industrial tendem a elevar o grau de escrutínio de órgãos como o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Caso o tribunal reconheça a concorrência desleal, a decisão pode criar precedente relevante sobre limites de pesquisa competitiva em ambientes de inovação digital.

Empresas de consultoria mencionadas nos autos também podem ser alcançadas pela responsabilização solidária, conforme prevê a LPI, o que expõe o ecossistema global de head-hunters e firmas de business intelligence a maior vigilância regulatória. Além do aspecto financeiro, a reputação corporativa de ambas as partes está em jogo, elemento crítico em um mercado que depende de parcerias com restaurantes e entregadores autônomos.

Conclusão Técnica

O processo ainda aguarda citação formal das rés e análise de eventual pedido de tutela de urgência. A partir da apresentação de defesa, a Justiça deverá avaliar a existência de prova material que vincule a Keeta e a Meituan às abordagens relatadas. Se confirmada infração ao art. 195 da LPI, as empresas estão sujeitas a indenizações e sanções que podem incluir abstenção de uso de documentos e materiais obtidos. Paralelamente, o inquérito policial sobre tentativa de espionagem contra a Keeta pode influenciar a percepção do judiciário acerca da disputa.

Com audiências preliminares previstas para o segundo semestre de 2026, o caso deve nortear discussões sobre proteção de dados competitivos e práticas de mercado no setor de delivery, servindo de referência para outros segmentos intensivos em informação estratégica.