O cenário eleitoral brasileiro de 2026 permanece equilibrado, com probabilidade de 50/50 entre continuidade e mudança de governo, e esse impasse tem direcionado a volatilidade de bolsa, dólar e juros desde julho, segundo Rogério Freitas, diretor de investimentos do ASA, em entrevista ao podcast Touros e Ursos publicada nesta quinta-feira (28).
Probabilidades eleitorais e reflexos imediatos nos ativos
O executivo avalia que o mercado precifica hoje cerca de 60 % de chance de reeleição, mas sustenta que a disputa está estatisticamente empatada. Esse descompasso entre percepção e realidade, afirma, é o principal motor dos movimentos recentes nos preços.
• Desde o início de julho, o fator eleitoral ultrapassou o ambiente externo como variável determinante dos fluxos para ações e câmbio.
• Ibovespa alterna quedas e recuperações bruscas, acompanhando a divulgação de pesquisas.
• No mercado de juros futuros, o vértice DI jan/30 oscilou mais de 80 pontos-base no período, refletindo revisões nas projeções fiscais de acordo com cada cenário de vitória.
Freitas ressalta que a assimetria é dupla: “Se houver mudança de política fiscal, a bolsa pode subir muito; se houver continuidade, a bolsa pode ser o pior ativo”. Portanto, a tentativa de antever o resultado tende a ampliar a exposição a choques adversos.
Estratégia recomendada: títulos indexados ao IPCA
Para atravessar o ciclo eleitoral sem depender do desfecho das urnas, o diretor do ASA sugere focar em renda fixa atrelada à inflação, tanto pública quanto privada, com vencimentos intermediários — principalmente 2030 e 2032.
• Esses papéis pagam hoje cerca de IPCA + 8 % ao ano, taxa considerada historicamente elevada.
• Caso o novo governo — qualquer que seja — sinalize responsabilidade fiscal, a curva de juros poderá ceder, gerando valorização adicional dos títulos.
• No cenário oposto, de piora na percepção de risco, o investidor ainda preserva o poder de compra pela correção inflacionária, enquanto o cupom real tende a subir para algo próximo de IPCA + 10 %.
Segundo cálculos do ASA, o carregamento desses títulos supera o CDI tanto em hipótese de alívio quanto de estresse fiscal: “Ele bate o CDI nos dois cenários”, resume Freitas.
Riscos de personalizar a carteira em ano eleitoral
O maior erro, aponta o gestor, é converter o portfólio em uma aposta direcional sobre quem vencerá a eleição. Ele cita o estudo clássico de Gary Brinson, que atribuiu 90 % do retorno de grandes fundos universitários norte-americanos à disciplina de manter a estratégia, e não à seleção de ativos ou ao timing de mercado.
• Profissionais com décadas de experiência raramente acertam eventos políticos com consistência estatística.
• Para investidores pessoas físicas, a mudança reiterada de exposição — influenciada por manchetes — eleva custos de transação e risco de erro comportamental.
• A diversificação multissetorial, combinada a ativos descorrelacionados como inflação longa, reduz a volatilidade total da carteira.
Ao ser questionado sobre alternativas de “proteção tática”, Freitas menciona apenas posições pontuais em câmbio ou commodities, mas adverte que tais instrumentos exigem gestão ativa diária e um nível de alavancagem incompatível com o perfil de longo prazo da maioria dos aplicadores.
Indicadores semanais: touros e ursos em destaque
No quadro de encerramento do episódio, o podcast listou movimentos corporativos que reforçam a necessidade de cautela:
Ursos
• Braskem (BRKM5): pedido de recuperação extrajudicial para renegociar US$ 11 bi em dívidas.
• Lulinha: investigações por tráfico de influência adicionam ruído político.
Touros
• Bitcoin (BTC): alta de 25 % em poucos dias, impulsionada por expectativas de queda dos juros longos nos EUA.
• Cosan (CSAN3): avanço nas negociações para venda parcial da Rumo, com potencial de redução de alavancagem.
Apesar de pontuais, esses casos ilustram a rapidez com que variáveis microeconômicas podem ganhar peso, reforçando a tese de não concentrar decisões em projeções eleitorais.
Conclusão técnica
Com a corrida presidencial de 2026 estatisticamente indefinida, a volatilidade deve permanecer elevada até o primeiro turno. A orientação do ASA converge para uma alocação que priorize títulos indexados ao IPCA, capazes de oferecer retorno real elevado e resiliência em cenários opostos de política fiscal. Investidores que mantiverem disciplina estratégica, evitando transformar a carteira em uma aposta eleitoral, tendem a mitigar riscos de curto prazo e capturar ganhos consistentes no longo prazo. Monitorar pesquisas, debates e indicadores fiscais continuará essencial, mas como ferramenta de ajuste fino — não como gatilho para mudanças estruturais de portfólio.



