Operação Crédito Oculto, deflagrada nesta quinta-feira (24), investiga se uma rede de nove fundos de investimento, 27 empresas e o Banco Genial foram usados para ocultar a real propriedade da distribuidora de combustíveis Terrana por meio de transações que somam R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.
Alvos, alcance geográfico e estrutura societária em análise
A terceira fase da força-tarefa coordenada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), com apoio de Receita Federal, Secretaria da Fazenda paulista e polícias Civil e Militar, cumpriu 40 mandados em 32 endereços espalhados por 11 cidades de seis estados e do Distrito Federal. Os principais investigados incluem o banqueiro Humberto Tupinambá, os irmãos André e Bruno Tupinambá, o empresário Antonio Carlos Freixo Junior e o advogado Rogério Garcia Peres, sócio-fundador da Altinvest, administradora de recursos sob foco do inquérito.
De acordo com os promotores, as empresas Berna e Branson, criadas um mês antes das operações com capital social de R$ 1 mil cada, funcionaram como holdings de fachada para receber empréstimos estruturados pelo banco. O executivo do mercado financeiro Paulo Narcélio Simões do Amaral aparece como representante formal dessas companhias, conferindo aparente legitimidade às transações perante a antiga controladora da Terrana, a norte-americana Tramp Oil, e à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Fluxo de recursos: da usina sucroalcooleira aos fundos dedicados
A engenharia financeira começou, segundo o Gaeco, com a ocultação da titularidade da Usina Itajobi, no interior paulista. Direitos creditórios da usina, avaliados em R$ 370 milhões, foram transferidos a um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC). Parte significativa dos recursos partiu de fundos já controlados pelo próprio grupo investigado, criando um fluxo circular que dificultava a identificação dos beneficiários finais.
Em um dos lances descritos, R$ 100 milhões percorreram, em questão de minutos, contas de passagem mantidas em fintechs ligadas aos investigados antes de retornar à conta da usina. Na etapa seguinte, o montante foi aplicado no Fundo Radford por meio de um Certificado de Depósito Bancário Vinculado (CDBV). Esse fundo, inicialmente administrado pela Altinvest, depois passou à custódia do Genial, mantendo a Altinvest como co-gestora.
No mesmo intervalo, o Banco Genial emitiu Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) em favor das holdings Berna e Branson, empregando como lastro o capital do próprio Radford. As CCBs previam depósitos semestrais de R$ 18,7 milhões, em um contrato que poderia atingir R$ 150 milhões. Paralelamente, parte dos valores financiou a aquisição de cotas de um Fundo de Investimento Imobiliário (FII), cujo portfólio era composto por imóveis previamente transferidos para empresas patrimoniais do grupo, preservando o controle econômico sem exposição direta no patrimônio pessoal dos envolvidos.
Papel do Banco Genial e indícios de ocultação patrimonial
Os investigadores sustentam que a participação do banco extrapolou o simples financiamento. Além de estruturar operações de crédito, o Genial teria auxiliado a mascarar a origem dos recursos e a identidade dos verdadeiros controladores. Documentos colhidos indicam que a instituição movimentou R$ 11,6 bilhões em sua área de investimentos entre 2021 e 2025, valor considerado incompatível com o perfil das empresas recém-criadas que tomaram empréstimos.

Ao ser questionado sobre o Fundo Radford, o Genial informou ter renunciado à administração do veículo após a primeira etapa da investigação (Operação Carbono Oculto), liquidado o CDBV relacionado e cedido sua posição nas CCBs ao próprio fundo. O banco também declarou que a concessão de crédito considerou a reputação de Paulo Narcélio. Para o Gaeco, entretanto, a sincronia entre a criação das holdings, o baixo capital social e o endereço compartilhado com outras empresas do grupo reforça a tese de dissimulação patrimonial.
Outra frente envolve o Grupo Entre, vinculado a Freixo, suspeito de intermediar US$ 12,33 milhões enviados por Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. A partir desses indícios, o Ministério Público aponta uma “convergência criminosa” entre operadores do setor de combustíveis e profissionais do mercado financeiro, capazes de oferecer serviços de lavagem de capitais a múltiplas organizações.
Conclusão técnica e próximos passos investigativos
Com o mapeamento das transferências, as autoridades afirmam ter identificado um sistema integrado de fundos fechados, empresas de propósito específico e operações de crédito colateralizadas que teriam possibilitado a compra da Terrana sem revelar os beneficiários finais. A investigação agora concentra-se na análise forense dos extratos bancários, na rastreabilidade internacional dos aportes e na eventual responsabilização por crimes de lavagem de dinheiro, organização criminosa e evasão de divisas.
Nos próximos meses, o MPSP deve concluir laudos periciais sobre a movimentação dos R$ 11,6 bilhões e encaminhar denúncias formais ao Judiciário. Paralelamente, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) poderá abrir processo administrativo para apurar a conduta do Banco Genial e das gestoras envolvidas no uso de estruturas de investimento para fins ilícitos. Dependendo do resultado, eventuais sanções podem incluir multas, inabilitação de administradores e liquidação de veículos de investimento relacionados ao esquema.



