O Ibovespa subiu 8,82% na semana imediatamente posterior ao primeiro turno presidencial e atingiu 209.066,90 pontos, novo recorde nominal, refletindo a leitura de maior probabilidade de uma agenda focada no equilíbrio das contas públicas a partir de 2027.
Fluxo de capital e mudança de recomendação de bancos globais
Logo após a divulgação dos resultados das urnas em 4 de outubro, a percepção de vitória de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno levou casas de análise estrangeiras a revisar posições em ativos locais. O JPMorgan alterou sua exposição a ações brasileiras de “neutra” para “compra” (overweight), enquanto o Morgan Stanley replicou o movimento. A reclassificação embutiu expectativa de valorização adicional de até 20% para a bolsa, sustentada por possível corte do déficit primário e estabilização da dívida/PIB a partir do próximo ciclo de governo.
O fluxo estrangeiro foi determinante: estimativas preliminares da B3 indicam ingresso líquido superior a R$ 8,5 bilhões entre segunda e sexta-feira, maior captação semanal desde o início de 2024. Esse volume reforçou a liquidez dos papéis de varejo e construção civil, segmentos considerados de alto beta e sensíveis à curva de juros.
Curva de juros, câmbio e ambiente macroeconômico
Na renda fixa, a taxa dos contratos DI para jan/2027 recuou de 14,05% para 12,93%, redução de 112 pontos-base, refletindo probabilidade de 90% de cortes de 0,25 p.p. na Selic já nas reuniões de novembro e dezembro, segundo precificação do mercado. A valorização das ações foi complementada pela queda de 0,44% do dólar, que encerrou a semana a R$ 4,9851, patamar mais baixo em quatro meses.
Do lado dos preços, o IPCA de setembro avançou 0,82%, superando a deflação de 0,32% registrada em agosto e elevando a inflação acumulada em 12 meses para 4,58%, acima do teto da meta de 4,5%. Apesar do dado pressionado, agentes avaliam que um eventual ajuste fiscal poderá ancorar expectativas a médio prazo, reduzindo prêmio de risco implícito na curva de juros.
No exterior, rendimentos dos Treasuries de dez anos atingiram 4,88%, máxima em 24 anos, mas a ferramenta FedWatch do CME apontava 82,3% de chance de manutenção da taxa-alvo do Federal Reserve em 3,75%–4,00% na reunião de outubro. O cenário global, embora volátil, não impediu a ampliação de posições em emergentes, dado o diferencial de juros real oferecido pelo Brasil.
Desempenho setorial: varejo lidera, exportadoras recuam
No topo das valorizações do índice apareceram companhias beneficiadas pelo alívio na curva de juros:
Magazine Luiza (MGLU3): +60,58%
Vamos (VAMO3): +44,73%
Smart Fit (SMFT3): +43,96%
MRV (MRVE3): +38,90%
C&A Modas (CEAB3): +31,84%
Essas companhias apresentam estrutura de capital mais sensível ao custo de financiamento doméstico; portanto, antecipação de quedas na Selic ampliou projeções de fluxo de caixa descontado e favoreceu revisões de preço-alvo.

Na direção oposta, empresas ligadas à receita em dólar sofreram ajuste negativo, resultado da apreciação do real e da volatilidade em commodities:
Embraer (EMBR3): -9,20%
Vale (VALE3): -5,83%
Suzano (SUZB3): -3,79%
No caso da Embraer, a desvalorização ajustou a projeção de margens em função da redução de 4% na cotação da moeda norte-americana, enquanto Vale permaneceu pressionada pela queda do minério de ferro e pelo aumento do frete Brasil–China.
Perspectivas para o segundo turno e projeções de curto prazo
Pesquisas divulgadas durante a semana apresentaram vantagem estatística de Flávio Bolsonaro sobre Luiz Inácio Lula da Silva. Levantamento Datafolha indicou 49% a 45% no cenário de votos válidos, enquanto a combinação AtlasIntel/Bloomberg apontou 51,1% contra 45,7%. A consolidação dessa tendência mantém o mercado em modo de risk-on, sobretudo para papéis domésticos.
Corretoras locais projetam que, caso a vitória de Flávio se confirme em 25 de outubro, o Ibovespa poderia alcançar faixa de 220 mil a 230 mil pontos até o fim de 2026, assumindo continuidade de entradas de capital externo e estabilidade no preço das commodities. Contudo, analistas ressaltam que a sustentabilidade do rali dependerá da formação da equipe econômica e da sinalização concreta de cortes de gastos já no primeiro orçamento da nova administração.
Conclusão técnica
O recorde semanal do Ibovespa resultou da combinação de expectativa de ajuste fiscal, reprecificação de juros futuros e reposicionamento de investidores internacionais. A manutenção desse patamar dependerá dos desdobramentos do segundo turno, da confirmação de medidas efetivas para contenção do déficit e da trajetória da inflação. Até lá, setores ligados à demanda interna e mais alavancados tendem a conservar desempenho superior, enquanto exportadoras seguem expostas à volatilidade cambial e de commodities.



