Um ajuste fiscal equivalente a 2 a 3 pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB) será inevitável a partir de 2027, segundo relatório da gestora Kinea, que alerta: o espaço para elevar impostos ou cortar gastos discricionários se esgotou, exigindo mudanças nas regras que sustentam aposentadorias, salários de servidores, benefícios sociais e emendas parlamentares.
Dimensão do rombo e comparação histórica
O documento intitulado A Bela Adormecida, divulgado em 13 de outubro de 2026, coloca o esforço fiscal previsto para o próximo mandato no mesmo patamar do ajuste realizado em 1999, durante a crise cambial que levou o país a firmar acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Naquele episódio, a solução combinou aumento de tributação e cortes na despesa livre. Hoje, a carga tributária já ronda um terço do PIB, enquanto a fatia de gastos sujeita a bloqueio ficou restrita. Para estabilizar a dívida pública, que mantém trajetória ascendente, a Kinea calcula ser indispensável um corte ou aumento de receita de cerca de R$ 200 bilhões anuais, valor próximo aos 2 a 3% do PIB projetados.
Estrutura do Orçamento de 2027 e gargalos para cortes
O projeto de lei orçamentária para 2027 prevê R$ 2,83 trilhões em despesas primárias. Desse total, aproximadamente 90% correspondem a gastos obrigatórios — aposentadorias, pensões, folha de servidores e programas de transferência de renda. Restam perto de R$ 270 bilhões em despesas discricionárias, mas apenas R$ 143 bilhões (cerca de 5% das despesas primárias) podem ser efetivamente suprimidos, pois o restante está vinculado a emendas impositivas e pisos constitucionais de saúde e educação. Mesmo a eliminação integral dessa margem cobriria menos da metade do ajuste necessário, reforçando a tese da gestora de que o foco deverá recair sobre as despesas obrigatórias.
Revisão do salário mínimo e de benefícios tributários
Entre as medidas listadas, a principal é a mudança no mecanismo de reajuste do salário mínimo. Hoje, cada R$ 1 de aumento nominal amplia o gasto federal em R$ 413,2 milhões. A proposta é que, a partir de 2028, a correção ocorra apenas pela inflação, eliminando o ganho real que pressiona o Orçamento. Paralelamente, a Kinea sugere rever índices que vinculam desembolsos em saúde, educação e emendas parlamentares à arrecadação, além de modernizar programas como BPC, auxílio-doença, abono salarial e a folha do funcionalismo. No campo das receitas, a análise enumera benefícios tributários que somam 4,4% do PIB; mais da metade concentra-se em Simples Nacional, incentivos ao agronegócio e deduções do Imposto de Renda da pessoa física. Reduzir essas renúncias complementaria o esforço de contenção de despesas.
Cenários para a dívida e a importância da confiança
Mesmo com o corte projetado de dois pontos de PIB, as simulações da Kinea indicam que a dívida continuaria avançando entre 2,5 e 3 pontos percentuais do PIB por ano se o custo de financiamento permanecer elevado. A estabilização ocorreria somente com a combinação de ajuste fiscal e queda dos juros, fruto de um “choque de credibilidade” que melhore as expectativas de mercado. Nesse cenário, o estoque da dívida poderia convergir para algo próximo a 90% do PIB ao longo da próxima década. Sem essa redução das taxas, o esforço primário isolado não bastará para reverter a trajetória ascendente.

Janela política e cronograma proposto
O calendário legislativo impõe pressa: o Orçamento de 2027 será votado pelo Congresso atual, enquanto as reformas estruturais precisarão ser encaminhadas logo nos primeiros meses do novo governo. A Kinea propõe um plano escalonado: ajuste de 0,5 ponto de PIB já em 2027, via corte de gastos discricionários e redução de benefícios tributários, seguido por 1,5 ponto em 2028, quando mudanças nas normas de gastos obrigatórios começariam a valer. As eleições municipais desse ano reduzem a margem para iniciativas impopulares, restringindo a janela de aprovação a 18 meses, entre janeiro de 2027 e julho de 2028.
Conclusão técnica
O próximo governo enfrentará um cenário fiscal inédito desde a redemocratização: necessidade de ajustar até 3% do PIB sem recorrer ao aumento expressivo de tributos nem a cortes amplos em despesas discricionárias. A Kinea identifica como caminho viável a revisão de regras que indexam benefícios ao salário mínimo, a limitação de vinculações constitucionais e a poda de renúncias fiscais que superam 4% do PIB. A efetividade dessas medidas dependerá da formação de uma coalizão política robusta e da capacidade de induzir queda nas taxas de juros. Caso a confiança se restabeleça, a dívida pode estabilizar perto de 90% do PIB; sem avanços, a trajetória continuará ascendente, preservando o risco fiscal como tema central da agenda econômica pós-2026.



