A destruição de aproximadamente R$ 6 bilhões em valor de mercado desde a fusão que criou a Azzas 2154 (AZZA3) reacendeu o debate sobre a viabilidade da operação e colocou a possível venda da marca Farm no centro das discussões entre analistas e investidores.
Fusão bilionária sem sinergias concretizadas
No segundo semestre de 2024, a união entre Arezzo&Co e Grupo Soma deu origem à Azzas 2154, companhia inicialmente avaliada em R$ 18 bilhões. O racional da transação previa sinergias operacionais potencialmente superiores a R$ 1,5 bilhão em três anos, apoiadas em integração de cadeias de suprimentos, ganhos de escala na produção de calçados e vestuário e unificação de canais digitais.
Passados dois anos, a maior parte dessas sinergias não se materializou. Relatórios internos de consultorias contratadas para acompanhar o processo apontam que menos de 25 % das metas de redução de custo foram atingidas, enquanto a sobreposição de estruturas elevou as despesas gerais em cerca de R$ 210 milhões anuais. Os números contrastam com o cenário projetado no anúncio da operação, quando a administração falava em redução imediata de R$ 80 milhões já no primeiro exercício consolidado.
Conflito entre Alexandre Birman e Roberto Jatahy trava decisões estratégicas
Analistas atribuem o insucesso da integração à disputa de poder entre os executivos Alexandre Birman (ex-Arezzo&Co) e Roberto Jatahy (ex-Grupo Soma). Pessoas próximas às negociações relatam que divergências sobre governança — especialmente a definição de quem teria a palavra final em decisões de capital, licenciamento de marcas e alocação de caixa — impediram avanços em projetos considerados críticos.
Uma das consequências diretas desse impasse foi a demora na consolidação dos centros de distribuição. O plano original previa o encerramento de dois armazéns até junho de 2025; contudo, diferenças táticas entre as diretorias empurraram o cronograma para 2027, segundo minuta de cronograma revisado que circulou em reuniões do conselho. Esse atraso isolado adiciona R$ 42 milhões às despesas logísticas anuais.
O mercado reagiu: as ações AZZA3 acumulam queda superior a 32 % desde o início de 2025. O valor de mercado, hoje em torno de R$ 12 bilhões, representa uma perda de R$ 6 bilhões em menos de 24 meses.
Farm: ativo premium que pode destravar valor
A Farm desponta como principal geradora de caixa do portfólio — responsável por aproximadamente 38 % da receita consolidada e por margem EBITDA estimada em 23,5 %, segundo dados do balanço do 2T26. Consultorias independentes avaliaram a marca entre R$ 7 bilhões e R$ 8 bilhões, cifra que, no limite superior, se aproxima do valor de mercado total da Azzas 2154.

A hipótese de alienação parcial ou total da Farm ganhou força após reuniões com bancos de investimento, realizadas em julho de 2026, nas quais se discutiu a possibilidade de um processo competitivo envolvendo grupos internacionais do setor de lifestyle. A venda poderia reduzir alavancagem, hoje em 2,7x dívida líquida/EBITDA, para patamar inferior a 1,5x, abrindo espaço para programas de recompra ou dividendos extraordinários.
Embora a Farm seja considerada a “galinha dos ovos de ouro”, parte do conselho defende que a segregação do ativo eliminaria o principal ponto de atrito entre Birman e Jatahy, além de simplificar a estrutura societária. Contrariamente, minoritários argumentam que a cisão privaria o grupo de seu principal motor de crescimento orgânico.
Reação do investidor e projeções de curto prazo
Relatórios divulgados por casas como Itaú BBA e BTG Pactual ajustaram o preço-alvo de AZZA3 para uma faixa entre R$ 23 e R$ 26, ante R$ 34 na estimativa anterior. Os analistas ressaltam três catalisadores: (1) definição clara de governança, (2) apresentação de um cronograma público de sinergias revisadas e (3) eventual monetização de ativos não core, com a Farm no topo da lista.
No curto prazo, o mercado monitora a assembleia extraordinária agendada para 15 de setembro de 2026, quando os acionistas votarão a criação de um comitê independente para avaliar propostas de desinvestimento. A aprovação exige maioria simples. Caso o grupo avance na venda, bancos estimam que o caixa adicional poderia ser incorporado ainda no 1T27.
Conclusão técnica
Os dados demonstram que a Azzas 2154 enfrenta um quadro de destruição de valor ancorado em sinergias não realizadas e conflito societário. A alienação da Farm surge como alternativa pragmática para recompor caixa, reduzir alavancagem e mitigar disputas internas. O próximo ponto de inflexão será a assembleia de 15 de setembro, cujo resultado definirá se a companhia buscará liquidez imediata através da venda do ativo ou se insistirá em capturar sinergias pendentes. Até lá, a ação AZZA3 deve permanecer sensível a rumores de mercado e às sinalizações da administração sobre governança e cronograma de integração.



