O Bradesco reportou lucro líquido recorrente de R$ 7,1 bilhões no terceiro trimestre de 2026, avanço anual de 14,6% que consolida o 11º período seguido de recuperação, porém a leve piora na inadimplência e o salto de 24,3% nas provisões reacenderam a cautela sobre a sustentabilidade da virada.
Lucro em linha com o consenso e rentabilidade acima das projeções
A cifra de R$ 7,1 bilhões ficou praticamente alinhada ao consenso da Bloomberg, de R$ 7,145 bilhões, e representou acréscimo trimestral de 0,8%. O retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE), indicador-chave de eficiência na alocação de capital, atingiu 16,1%, ligeiramente superior à estimativa de mercado de 15,9%. Segundo o presidente-executivo Marcelo Noronha, o ganho decorreu da “expansão de receitas, controle de despesas e gestão de risco”, fatores que mantêm o banco “mais capitalizado” para explorar novas oportunidades.
O resultado confirma a trajetória de alta iniciada no fim de 2023, quando a instituição lançou um plano de reestruturação para conter custos operacionais e reforçar governança de risco. Com 11 trimestres consecutivos de melhora, o Bradesco sustenta agora um patamar de rentabilidade comparable aos principais concorrentes privados.
Crédito cresce em ritmo moderado e concentração migra para linhas garantidas
A carteira de crédito expandida somou R$ 1,15 trilhão, avanço anual de 11,1% e trimestral de 1,1%. O crescimento foi puxado por produtos com colateral, notadamente financiamentos imobiliários, veículos, avais e fianças e títulos de TVM, refletindo postura seletiva diante de um cenário de juros elevados e demanda desaquecida.
Noronha destacou a “boa tração comercial” em tesouraria para clientes e nas receitas de serviços — gestão de recursos, mercado de capitais e consórcios —, segmentos que funcionaram como amortecedor para a menor contribuição do crédito tradicional. A estratégia de segmentar clientes de melhor rating permitiu arrecadar spreads mais estáveis, ainda que a originação total tenha desacelerado frente à média histórica.
Inadimplência avança e pressiona provisões para perdas
O índice de atrasos acima de 90 dias avançou 0,5 ponto percentual na comparação anual e 0,3 p.p. frente ao 2T26, encerrando o trimestre em 4,6%. A deterioração, embora modesta, ocorreu em meio a um ambiente descrito pela administração como “desafiador”, marcado por juros reais elevados, comprometimento de renda das famílias e restrição financeira às empresas.

Em resposta, as despesas de provisão para devedores duvidosos (PDD) somaram R$ 10,6 bilhões, alta de 24,3% ano contra ano e de 6,6% na base trimestral. O crescimento da PDD reduziu parte do impacto positivo da margem financeira e reforçou a importância de monitorar a qualidade da carteira nos próximos trimestres. Analistas observam que, mantida a tendência, cada ponto percentual adicional de inadimplência exigirá aportes significativos de capital, potencialmente comprimindo o lucro futuro.
Margem financeira reforça receita, impulsionada pela tesouraria
A margem financeira total atingiu R$ 21,3 bilhões, aumento de 14,2% em doze meses. Dentro do indicador, a margem com clientes cresceu 10,1%, para R$ 20,5 bilhões, confirmando a resiliência das operações bancárias core mesmo sob menor expansão de crédito. Já a margem com o mercado — sensível a posições de tesouraria e volatilidade de taxas — saltou 783%, registrando R$ 875 milhões, o que contribuiu de forma relevante para a linha de receita.
Especialistas atribuem a performance da tesouraria ao aproveitamento de oportunidades em títulos públicos atrelados à inflação e operações de arbitragem em câmbio, além de estratégias defensivas diante da curva de juros mais longa. O enquadramento nas normas prudenciais do Banco Central permaneceu confortável, sustentado por um índice de Basileia acima de 13%.
Conclusão técnica e próximos marcos
O balanço do 3T26 demonstrou capacidade do Bradesco de gerar lucro crescente e rentabilidade consistente mesmo em ambiente macroeconômico adverso. O aumento da inadimplência, porém, resultou em reforço expressivo das provisões, sinalizando que o risco de crédito segue como principal variável de pressão para os trimestres subsequentes. O banco projeta continuidade de originação concentrada em linhas colateralizadas, expansão de receitas não vinculadas a crédito e disciplina de despesas para mitigar o impacto de eventuais novos calotes. Investidores acompanharão especialmente o comportamento do índice de atrasos acima de 90 dias e a evolução da PDD no 4T26, além dos efeitos de possíveis cortes graduais na taxa básica de juros sobre a demanda por empréstimos.



