Cosan abriu a fase de propostas vinculantes para alienar aproximadamente 15% de sua participação na Rumo, operação que pode levantar até R$ 5 bilhões e reforçar a estratégia de redução de endividamento do conglomerado controlado por Rubens Ometto.
Contexto da decisão e metas de desalavancagem
A Cosan, holding que reúne ativos em energia, logística e agricultura, vem executando desde 2025 um plano estruturado para reduzir a alavancagem após um ciclo de aquisições financiadas por dívida e pela elevação da taxa básica de juros. No fim do segundo trimestre de 2026, a companhia divulgou dívida líquida consolidada de R$ 9,22 bilhões, montante 47% inferior ao registrado um ano antes. Apesar da melhora, o índice de cobertura do serviço da dívida — relação entre dividendos recebidos das subsidiárias e encargos financeiros da holding — permaneceu em 0,2 vez, distante da meta corporativa de 0,8 a 1,2 vez estabelecida para dezembro de 2026.
Para encurtar essa distância, a holding já monetizou ativos relevantes: em dezembro de 2025, se desfez de 4,98% do capital da Rumo, levantamento que manteve a Cosan como acionista majoritária com pouco mais de 20,33% do capital. Meses depois, captou R$ 10 bilhões num aporte conjunto de BTG Pactual, Perfin Investimentos e da família Ometto.
A atual rodada de desinvestimento foi anunciada ao mercado em junho de 2026, quando a Cosan contratou o BTG Pactual como assessor financeiro para avaliar alternativas envolvendo a operadora ferroviária. A entrada na etapa de propostas vinculantes sinaliza avanço concreto nas negociações.
Detalhes da operação em avaliação
De acordo com informações da plataforma Broadcast, a Cosan pretende alienar cerca de 15% da Rumo (RAIL3) em uma operação estimada em até R$ 5 bilhões. A transação não exigirá oferta pública de aquisição (OPA) aos minoritários, pois o bloco a ser vendido não altera o controle — condição conferida pelo fato de a Cosan deter pouco mais de 20% do capital total.
Entre os candidatos que avançaram para a fase atual de análise de contratos e avaliação final de due diligence estão:
- Grupo México, operador ferroviário latino-americano com presença em malhas de transporte de carga e mineração.
- Cofco, gigante chinesa do agronegócio, que teria submetido proposta conjunta com a Bunge.
O Grupo Ultra, que avaliava ingressar no ativo, abandonou o processo por divergência em torno da precificação. Já a Inpasa, biorrefinaria de grãos, confirmou não ter entregue proposta vinculante. A Cosan ressalta que nenhuma decisão definitiva foi tomada e que a alienação continuará a depender de condições de mercado e aprovação interna.
Rumo: importância estratégica e atratividade para investidores
A Rumo opera uma das maiores malhas ferroviárias de cargas da América Latina, conectando polos agrícolas e industriais do Centro-Oeste, Sul e Sudeste aos principais portos exportadores do país. Esse posicionamento garante receita estável, beneficiada pelo crescimento do agronegócio e da demanda por soluções logísticas de baixo custo e menor pegada de carbono.
Para potenciais compradores, a participação pode representar:
- Exposição direta ao volume crescente de commodities agrícolas brasileiras.
- Sinergias operacionais em corredores de exportação controlados ou utilizados pelas interessadas, como no caso de tradings globais.
- Diversificação geográfica de ativos de infraestrutura em moeda forte para conglomerados estrangeiros.
Do ponto de vista da Cosan, a estrutura societária atual oferece flexibilidade: vender fatias definidas sem perder o status de acionista relevante, mantendo influência estratégica sobre a expansão da malha ferroviária e a integração com outros ativos do grupo.
Impacto financeiro e próximos passos
Caso confirmada a venda estimada em R$ 5 bilhões, a Cosan terá instrumentos adicionais para atacar o passivo corporativo de forma seletiva. A companhia já destinou R$ 2,3 bilhões obtidos com a oferta secundária de ações da Compass para amortização de dívidas. A nova liquidez pode elevar a cobertura do serviço da dívida a patamares mais próximos da faixa-meta até o fim de 2026, além de reforçar dividendos esperados pelas controladas.
Analistas observam que a holding terá de complementar o plano financeiro com outros movimentos previstos, como a venda de terras da Radar, estimada em R$ 586 milhões, e a captura de aproximadamente R$ 530 milhões em dividendos adicionais das demais subsidiárias no segundo semestre.
Conclusão técnica
O recebimento de propostas vinculantes confirma tração no projeto de desinvestimento da Cosan e sinaliza que a alienação de até 15% da Rumo pode ocorrer ainda em 2026, condicionada à convergência de preço e aprovação dos comitês internos. A injeção potencial de R$ 5 bilhões, combinada a outras fontes de caixa já mapeadas, deverá acelerar o alcance da meta de cobertura do serviço da dívida e aprimorar a estrutura de capital da holding sem comprometer o controle sobre a operadora ferroviária. Novos comunicados ao mercado definirão o cronograma final e a efetiva alocação dos recursos.



