Loura, um papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) mantido há quatro anos em quarentena no Centro de Manejo e Conservação de Animais Silvestres (CeMaCAS) do Parque Anhanguera, em São Paulo, ilustra a difícil missão de reabilitar fauna retirada ilegalmente da natureza. Agitada, com feridas por automutilação e treinada para cantar o hino do São Paulo Futebol Clube, a ave não tolera o contato de homens e vive isolada para tratamento.
O CeMaCAS recebeu 1.237 animais entre janeiro e julho de 2024, 34% a mais que em 2021. No mesmo ano, os 25 Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) acolheram cerca de 60 mil espécimes provenientes de apreensões, resgates ou entregas voluntárias.
Tráfico rentável e difícil de conter
Os papagaios-verdadeiros, valorizados pela capacidade de imitar a fala humana, podem custar R$ 100 na origem — geralmente no Centro-Oeste ou Nordeste — e até dez vezes mais nos grandes centros do Sul e Sudeste. Entre 1988 e 2024, estimados 12,5 mil filhotes foram apreendidos somente em Mato Grosso do Sul, segundo a ecóloga Gláucia Seixas, que calcula que esse número represente menos de 10% do total retirado da natureza.
Nos últimos cinco anos, os Cetas receberam 330 mil animais; três em cada quatro foram devolvidos ao habitat, enquanto quase 20% não resistiram. De janeiro a junho de 2024, 13 mil bichos voltaram à natureza, 48% deles vítimas do tráfico.
Ararinhas-azuis: retorno frustrado
A tentativa de reintroduzir ararinhas-azuis (Cyanopsitta spixii) na caatinga baiana sofreu revés. Onze aves libertadas desde 2022 foram recapturadas em novembro de 2025 após a detecção do circovírus, responsável pela Doença do Bico e das Penas dos Psitacídeos. O surto também atingiu um criadouro com outras 92 ararinhas na Bahia.
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) multou o Criadouro Ararinha-Azul em R$ 1,8 milhão por falhas de biossegurança. A soltura de um novo grupo foi suspensa, e 27 indivíduos permanecem no Zoológico de São Paulo.
Custos elevados e necessidade de prevenção
Especialistas apontam que a falta de um banco de dados nacional sobre apreensões dificulta a formulação de políticas públicas. A diretora-executiva da Freeland Brasil, Juliana Machado Ferreira, defende uma estratégia que combine reforço da lei, redução da demanda e cooperação internacional. Já Gláucia Seixas ressalta que monitorar e reabilitar animais é caro e nem sempre eficaz, sugerindo maior investimento em fiscalização de áreas naturais e campanhas de conscientização.
Imagem: Heloísa Traiano via dw.com
Atualmente, 1.254 espécies e subespécies da fauna brasileira estão ameaçadas de extinção, 257 delas aves. Outras 337 são classificadas como quase ameaçadas, podendo entrar em risco em breve.
O caso de Loura e das ararinhas-azuis expõe os altos custos financeiros e biológicos do tráfico de fauna, reforçando a urgência de ações conjuntas para impedir que mais animais sejam retirados de seus habitats.
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Com informações de DW



