O Fundo Verde, liderado por Luís Stuhlberger, sinalizou na carta de setembro que a combinação entre resultado eleitoral favorável a Flávio Bolsonaro, expectativa de disciplina fiscal e possível queda dos juros domésticos abre espaço para um novo rali na bolsa brasileira; o gestor, contudo, adverte que a elevação dos rendimentos de títulos de longo prazo nos Estados Unidos e em outras economias desenvolvidas pode limitar o apetite global por risco.
Resultado eleitoral redefine o prêmio de risco local
O primeiro turno das eleições presidenciais, realizado em 4 de outubro de 2026, surpreendeu ao colocar Flávio Bolsonaro cerca de dois pontos percentuais à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, contrariando as principais pesquisas. No pregão seguinte, o Ibovespa saltou 7,7 %, superando os 206 mil pontos na máxima intradiária. Os juros futuros de longo prazo recuaram e o real apreciou 4 % frente ao dólar.
Segundo a carta do Fundo Verde, esse desempenho reforça a percepção de que um eventual governo mais alinhado à contenção fiscal facilitaria a convergência da taxa Selic para níveis mais baixos em 2027. No mês de setembro, a carteira do fundo já vinha capturando parte desse movimento, registrando ganhos com ações brasileiras e posições relativas em juros reais locais.
Além do resultado presidencial, o avanço de candidatos de direita na Câmara e no Senado elevou a probabilidade de aprovação de medidas de ajuste fiscal no próximo mandato. Para a Verde Asset, essa combinação entre cenário político e fundamentos macroeconômicos pode sustentar uma revisão positiva do risco-Brasil, fator essencial para a entrada de capital estrangeiro.
Juros domésticos e fluxo de investidores sustentam a tese de alta
A gestora avalia que uma política fiscal mais contida permitiria ao Banco Central antecipar cortes adicionais na taxa Selic, hoje em 10,75 % ao ano. A perspectiva de redução do custo do capital beneficia principalmente setores sensíveis a juros, como consumo, construção civil e small caps.
Outro elemento destacado é o posicionamento ainda reduzido de investidores estrangeiros no mercado acionário brasileiro. De acordo com dados da B3, o fluxo externo acumulado no ano até setembro era inferior a R$ 15 bilhões, montante considerado modesto em relação a ciclos de otimismo anteriores. Uma migração de recursos de renda fixa global para bolsas emergentes, em particular para o Brasil, pode ampliar o potencial de valorização do benchmark.
Dentro da própria carteira do Fundo Verde, a exposição a ações brasileiras foi aumentada marginalmente após o primeiro turno, acompanhada da manutenção de posições defensivas em metais preciosos, como ouro e prata, e de proteção cambial.
Pressão dos rendimentos nos EUA impõe limite à euforia
Enquanto o ambiente doméstico melhora, o cenário internacional se torna mais desafiador. Rendimentos de Treasuries de 10 anos ultrapassaram 4,70 % ao ano em setembro, nível não observado desde 2007. A Verde relaciona o avanço a quatro fatores principais:

• Petróleo acima de US$ 90 o barril, impulsionado pelos conflitos envolvendo Rússia, Ucrânia, Estados Unidos e Irã;
• Expansão fiscal contínua em economias desenvolvidas;
• Postura mais restritiva do Federal Reserve diante da persistência inflacionária;
• Volume expressivo de captações destinado a projetos de inteligência artificial e transição energética.
Até o momento, as bolsas norte-americanas resistem, ancoradas no crescimento dos lucros corporativos. No entanto, a gestora questiona até que ponto os juros podem subir antes de provocar uma correção mais profunda. Qualquer movimento de aversão ao risco tende a contaminar mercados emergentes, inclusive o brasileiro, mesmo em contexto doméstico favorável.
Nesse ambiente, o fundo mantém exposição neutra em renda fixa local e guarda uma posição aplicada em juros reais nos Estados Unidos, que tende a se beneficiar de eventual queda desses rendimentos caso o cenário se deteriore.
Perspectivas e próximos marcos
O segundo turno das eleições, marcado para 25 de outubro de 2026, permanece como catalisador imediato para os ativos brasileiros. A Verde Asset considera baixa a probabilidade de reversão da vantagem de Flávio Bolsonaro, mas enfatiza que a efetividade do programa econômico será determinante para a manutenção do otimismo.
No front externo, investidores monitoram as próximas reuniões do Federal Reserve e a evolução dos indicadores de inflação nos Estados Unidos. Um eventual arrefecimento das pressões de preços ou sinalização de pausa no ciclo de aperto monetário pode aliviar os rendimentos de longo prazo e criar condições para a retomada do fluxo a mercados emergentes.
Em síntese, o Fundo Verde vê condições técnicas para que o Ibovespa continue renovando recordes caso o ambiente fiscal doméstico avance na direção de maior responsabilidade e a taxa Selic inicie trajetória de queda mais acentuada em 2027. Entretanto, o deslocamento dos juros globais permanece como principal risco sistêmico, capaz de interromper o rali local mesmo diante de fundamentos internos favoráveis.



