Relatórios recentes de Inter e Citi apontam que, apesar da alta aproximada de 7% do Ibovespa desde o primeiro turno das eleições de 2026, o principal índice da B3 permanece negociado com desconto e pode alcançar 240 000 pontos no médio prazo, sustentado por múltiplos atrativos, fluxo estrangeiro positivo e expectativa de expansão moderada dos lucros corporativos.
Valuation indica espaço adicional: múltiplo P/L segue abaixo da média histórica
O cerne das projeções dos bancos está no preço sobre lucro (P/L) projetado das companhias listadas. Segundo o Citi, o índice negocia a 9,4 vezes o lucro estimado para os próximos 12 meses, enquanto o Inter calcula o múltiplo “pouco acima de 10 vezes”, ambos inferiores à média histórica de 11 vezes.
Se o P/L retornar ao patamar médio, o Inter estima uma valorização potencial próxima de 10%, cifra que pode aumentar caso os resultados corporativos avancem na mesma direção. O banco brasileiro projeta crescimento adicional de cerca de 5% nos lucros do conjunto de empresas que compõem o Ibovespa, cenário que sustentaria o objetivo de 240 000 pontos.
Para o Citi, a disparidade entre múltiplos atuais e históricos sugere que a recente escalada não esgotou o ciclo de reprecificação. O relatório lembra que, na máxima de 9 de outubro, o índice atingiu 209 000 pontos, acumulando alta anual de 29,75%, mas ainda abaixo do teto projetado pelos analistas.
Fluxo estrangeiro compensa venda de pessoa física e reforça tese de alta
Outro pilar dos relatórios é o comportamento dos investidores internacionais. Até 9 de outubro, o saldo de capital externo na B3 somava R$ 43,1 bilhões em 2026, segundo dados citados pelo Inter. Somente em outubro, o Citi registrou entradas adicionais de R$ 18 bilhões.
Em contraste, o investidor pessoa física realizou lucros: o fluxo acumulado desse grupo migrou para –R$ 1,6 bilhão no ano. Para os bancos, essa venda local não invalida a tendência de alta porque o capital estrangeiro continua sustentando a demanda por ações brasileiras, reforçado por avaliações de que o mercado segue descontado.
A análise do Citi indica ainda que as compras recentes não se limitaram à recomposição de posições vendidas: tratou-se de realocação estrutural de portfólio, motivada pela revisão do risco Brasil e pela busca de prêmios mais elevados em emergentes.
Fator eleitoral adiciona volatilidade, mas não altera fundamento
Os bancos ressaltam que a corrida presidencial permanece o principal catalisador de curto prazo. Pesquisa Quaest de 14 de outubro mostrou Flávio Bolsonaro com 46% contra Lula com 44%. A margem estreita amplia o potencial de oscilações diárias, uma vez que mudanças na intenção de voto afetam diretamente expectativas para política fiscal e trajetória dos juros.
Historicamente, candidatos que lideram o primeiro turno tendem a vencer o segundo, mas a vantagem reduzida mantém o desfecho em aberto. Para Citi e Inter, a confirmação do cenário base — continuidade de políticas pró-mercado e avanço em reformas — é condição para a materialização da tese de valorização adicional. Caso contrário, a precificação de risco pode voltar a ampliar o desconto brasileiro.

Mesmo com incertezas, os analistas argumentam que parte dos riscos eleitorais já está embutida nos preços. O P/L inferior à média internacional reflete prêmios históricos associados a juros altos, pressões fiscais e choques políticos; portanto, não seria necessária reversão completa desses fatores para destravar valor, apenas um alívio parcial no prêmio de risco.
Comparação internacional reforça percepção de desconto estrutural
O Inter compara o Ibovespa a índices de mercados emergentes como Índia, Taiwan, México e Indonésia, que negociam a múltiplos superiores. Até mesmo a Austrália, economia desenvolvida e intensiva em commodities, apresenta média de 15 vezes lucros projetados.
A disparidade não significa que a bolsa brasileira deva convergir integralmente para esses patamares. Cada país possui premissas macroeconômicas e níveis de governança distintos. Contudo, o Inter sustenta que a redução parcial do “desconto Brasil” — hoje influenciado por Selic elevada e incerteza fiscal — seria suficiente para levar o índice ao alvo projetado.
Nesse raciocínio, o driver de curto prazo é a recomposição de múltiplos; o de médio prazo, o crescimento gradual de lucros corporativos; e, no longo prazo, a normalização de variáveis macroeconômicas como inflação e endividamento público.
Conclusão técnica
Em síntese, Inter e Citi convergem na avaliação de que o Ibovespa permanece descontado, negociando abaixo de seu múltiplo histórico e de pares globais. A combinação de P/L em torno de 10 vezes, entradas líquidas de capital estrangeiro e projeção de crescimento moderado dos lucros sustenta a meta de 240 000 pontos no horizonte de médio prazo. O principal risco imediato é a evolução da disputa presidencial, cuja volatilidade pode gerar recuos temporários. Mantido o cenário base de continuidade de políticas pró-mercado e redução gradual do prêmio de risco, os relatórios concluem que ainda há margem para valorização adicional do mercado acionário brasileiro.



