Investidores enfrentarão um ciclo prolongado de juros elevados em escala mundial, afirma Bruno Marques, gestor de multimercados da XP Asset, ao prever maior seletividade na alocação de recursos e competição direta entre renda fixa e ativos de risco.
Forças estruturais mantêm os rendimentos em patamares históricos
Em entrevista ao podcast Touros e Ursos, Bruno Marques ressaltou que as taxas de referência já não dependem exclusivamente das decisões de bancos centrais. Segundo o gestor, três vetores sustentam o novo cenário:
- Endividamento de governos: déficits fiscais ampliados pressionam a emissão de títulos públicos, elevando os prêmios exigidos pelo mercado.
- Aceleração dos investimentos em inteligência artificial: grandes companhias de tecnologia migraram de geradoras de caixa para fortes tomadoras de capital, competindo por financiamento de longo prazo.
- Crescente demanda por segurança: investidores globais reforçam posições em papéis soberanos, exigindo retorno adicional para compensar riscos macroeconômicos.
O reflexo imediato aparece na curva americana. Um Treasury de 30 anos remunera 5,5% ao ano, nível classificado por Marques como “raramente observado nas últimas quatro décadas”. Esse juro realçado baliza outros mercados, incluindo o brasileiro, onde o título prefixado de dez anos superou 13% no mesmo período de referência.
Impactos sobre ações, fundos imobiliários e economia real
Com a renda fixa oferecendo retorno expressivo para risco reduzido, a barreira de atratividade se eleva para qualquer outro ativo. “Não basta a ação parecer barata; precisa entregar prêmio significativo sobre o juro sem risco”, sintetizou o gestor.
Os efeitos principais mapeados pela XP Asset incluem:
- Redefinição de valuation: múltiplos de empresas sensíveis ao custo de capital tendem a se ajustar, sobretudo em setores alavancados ou dependentes de crescimento futuro.
- Revisão nos portfólios de fundos imobiliários: cotas que antecipavam compressão de cap rate enfrentam reprecificação à medida que títulos públicos encarecem.
- Volatilidade ampliada: movimentos de grandes gestoras internacionais potencializam oscilações de curto prazo, exigindo gestão ativa para capturar distorções.
Marques exemplificou com o mercado doméstico: apesar do ciclo de flexibilização da Selic, parte dos setores mais penalizados pela alta de juros ainda exibe recuperação incipiente. A seleção de papéis, portanto, torna-se mais determinante do que a simples compra de índices amplos, observou.
Competição global por liquidez molda o comportamento do investidor
A convicção de que as taxas cairiam rapidamente levou alguns agentes a adiarem a realocação de recursos. O gestor alerta, porém, que as “forças estruturais” indicam uma normalização para cima dos rendimentos. Dessa forma, estratégias tradicionais construídas durante a era de juros zero precisam ser revisitadas.

Entre as orientações enfatizadas no podcast:
- Diversificação geográfica e de duration para mitigar choques específicos de cada economia.
- Priorização de fluxo de caixa consistente em ações de empresas capazes de repassar custos e sustentar margens.
- Gestão profissional ativa como resposta a cenários mais complexos e à velocidade dos reajustes de mercado.
Além do diagnóstico macroeconômico, o quadro semanal Touros e Ursos trouxe menções pontuais: no campo negativo, o aumento da polarização política e os desdobramentos eleitorais no Rio de Janeiro; no positivo, a perspectiva de reformas econômicas após possível troca de governo e o rali dos títulos públicos brasileiros, com valorização entre 10% e 12%.
Conclusão Técnica
Os dados evidenciam que juros elevados passaram a compor o pano de fundo estrutural da economia global. Governos mais endividados, investimentos corporativos intensivos em capital e demanda persistente por ativos seguros sustentam a tendência. Nesse ambiente, renda fixa de longo prazo oferece remuneração competitiva, compelindo investidores a reavaliar expectativas de retorno nos demais mercados.
Diante desse quadro, as próximas etapas deverão envolver: 1) ajustes adicionais nos valuations de ativos sensíveis ao custo de capital; 2) aumento da demanda por estratégias de stock picking e análise fundamentalista; 3) manutenção de volatilidade elevada até que o mercado consolide um novo equilíbrio de taxas. A adaptação das carteiras a essa realidade será decisiva para a performance nos anos seguintes.



