Relatório do JP Morgan identifica grupos de ações capazes de se valorizar em ambientes de juros opostos, dependendo do avanço ou da estagnação da política fiscal após as eleições presidenciais de 2026.
Política fiscal no centro da estratégia
O estudo do JP Morgan, distribuído a clientes em 29 de setembro de 2026, analisa a correlação entre a trajetória fiscal, a curva de juros e o comportamento das ações brasileiras. Três carteiras foram estruturadas:
- Cenário otimista – reformas aprovadas, queda dos juros de longo prazo.
- Cenário pessimista – ausência de ajustes, manutenção de juros elevados.
- Cenário neutro – nomes com exposição internacional ou motores próprios de crescimento.
O banco norte-americano não associa diretamente cada hipótese a candidatos específicos, concentrando-se nos desdobramentos macroeconômicos que influenciam o custo de capital, a confiança do investidor e a velocidade da atividade.
Cenário otimista: juros em queda favorecem consumo e incorporação
Com a aposta de que reformas estruturais abrirão espaço para recuo na taxa longa, o banco elege empresas ligadas a shopping centers e construção de média e alta renda:
Iguatemi (IGTI11), Multiplan (MULT3) e Allos (ALOS3) aparecem como principais beneficiárias. As redes negociam a múltiplos descontados, mantêm taxas de ocupação entre 96% e 97 % e exibem expansão de vendas e aluguéis em lojas maduras.
No segmento residencial, os analistas apontam Cyrela (CYRE3) e Eztec (EZTC3). O movimento de baixa nos juros futuros reduz o valor de financiamentos e amplia a procura por imóveis de ticket superior. Eventos específicos reforçam a tese: possível venda do empreendimento Pininfarina pela Cyrela, já locado ao Nubank, e locação integral do Esther Towers ao Itaú pela Eztec.
A lista otimista inclui ainda MRV (MRVE3). Com dívida líquida superior a 110 % do patrimônio líquido, a construtora tem alavancagem elevada que se torna vantajosa num ambiente de crédito mais barato.
Em autopeças, Randoncorp (RAPT4) e Frasle Mobility (FRAS3) despontam por estarem expostas ao mercado doméstico de veículos pesados. A dívida líquida de RAPT4, equivalente a 3,2× Ebitda, pode sofrer alívio financeiro com cortes na Selic longa.
Cenário pessimista: proteção via renda baixa e exportação
Se o ajuste fiscal não avançar, o relatório sugere migração para empresas menos sensíveis à taxa interna de financiamento ou amparadas por programas governamentais:

No setor de construção, o foco muda para a faixa de baixa renda beneficiada pelo Minha Casa, Minha Vida. As escolhidas são Tenda (TEND3), Direcional (DIRR3) e Cury (CURY3), nesta ordem. Possíveis revisões de subsídios, como juros reduzidos e tetos de preço maiores, sustentam a demanda mesmo em ambiente adverso.
Entre fabricantes de autopeças, a preferência recai sobre exportadoras. Tupy (TUPY3) e Iochpe-Maxion (MYPK3) concentram receita em mercados externos, característica que cria hedge natural contra real depreciado. Já Marcopolo (POMO4) e Mahle Metal Leve (LEVE3) entram na lista pelos dividend yields de 11 % e 10 %, respectivamente, proporcionando retorno direto ao acionista enquanto o custo de oportunidade doméstico permanece alto.
Apostas neutras: exposição global e backlog robusto
Para atravessar qualquer resultado nas urnas, o JP Morgan destaca nomes com receita dolarizada e crescimento estrutural:
Embraer (EMBR3) opera com ênfase em exportação; clientes nacionais representam fração mínima da carteira. O backlog da fabricante totaliza US$ 34,5 bilhões, oferecendo visibilidade de produção plurianual. Já WEG (WEGE3) permanece na carteira pela diversificação geográfica e expansão de transformadores, que podem somar US$ 1,7 bilhão em receitas adicionais até 2028. A adoção de sistemas de armazenamento de energia em baterias no Brasil reforça a tese de aumento de margens.
Analistas alertam, contudo, que valorização expressiva do real poderia pressionar o desempenho de WEGE3, embora considerem esse cenário de probabilidade reduzida.
Conclusão técnica
O mapeamento do JP Morgan demonstra que a variável determinante continuará sendo a condução fiscal após as eleições de 2026. Reformas que comprimam o déficit potencializam segmentos dependentes de crédito interno, enquanto a inércia fiscal favorece exportadores e empresas apoiadas em subsídios habitacionais. Mesmo com as carteiras segmentadas, o banco ressalta riscos para 2027: inflação persistente, juros reais elevados, déficit fiscal ampliado, desaceleração econômica e degradação do ciclo de crédito. Esses fatores mantêm a necessidade de revisões periódicas nas recomendações à medida que novos dados fiscais e de atividade econômica forem divulgados.



