Ao projetar a adoção do Imposto sobre Valor Agregado (IVA), o secretário extraordinário da reforma tributária, Bernard Appy, afirmou em 29 de setembro de 2026 que empresas brasileiras precisarão revisar estruturas produtivas, contratos e cadeias de suprimentos para se manter competitivas durante e após a transição para o novo sistema.
Nova lógica do IVA substitui incentivos fiscais por eficiência econômica
Durante palestra organizada pelo grupo Mercado & Opinião, Appy sublinhou que o IVA não se limita a substituir tributos federais, estaduais e municipais; trata-se de redirecionar decisões corporativas hoje moldadas por benefícios fiscais esparsos. O economista observou que fábricas são deslocadas, centros de distribuição relocalizados e contratos de fornecimento são redigidos primariamente para mitigar carga tributária — distorções que a reforma pretende eliminar.
Com o novo modelo, cada elo da cadeia poderá recuperar créditos de imposto pago. A consequência prevista é a migração das escolhas empresariais para critérios de produtividade, custo operacional e logística. Segundo dados apresentados no evento, aproximadamente R$ 160 bilhões em renúncias fiscais concedidas anualmente pelos entes federativos devem gradualmente perder relevância econômica.
Appy ilustrou o conceito com um exercício: “Imagine um mundo sem imposto”. Ao neutralizar o peso da tributação nos cálculos de retorno sobre investimento, a reforma busca aproximar o planejamento empresarial de modelos internacionais baseados em eficiência e escala, retirando o Brasil de posições inferiores em rankings de competitividade.
Repercussões na cadeia produtiva e renegociação de contratos
Para o secretário, o primeiro reflexo concreto do IVA será percebido na renegociação de preços entre fornecedores e clientes. O crédito garantido em cada etapa deverá recalibrar margens, promovendo revisões contratuais que podem alterar custos de matérias-primas e de serviços terceirizados.
A depender do setor, companhias tendem a reavaliar
- terceirização versus internalização de processos;
- localização de plantas industriais;
- rota de transporte e armazenagem;
- escopo de acordos comerciais de longo prazo.
Ao não mapear a nova matriz de custos, alertou Appy, empresas correm o risco de “deixar dinheiro na mesa”. Áreas de suprimentos, finanças e planejamento estratégico precisarão desenvolver cenários de recuperação total de créditos para evitar perda de competitividade.
Estudos internos do Ministério da Fazenda estimam que, eliminadas as ineficiências, pode haver incremento potencial de até 0,9 ponto percentual no PIB anual após a consolidação da transição, ampliando mercado doméstico e atraindo capital produtivo.

Desafios operacionais e cronograma de transição curto
Apesar do discurso otimista, Appy reconheceu a complexidade da implantação. Sistemas de faturamento, ERPs e plataformas de gestão fiscal precisarão ser ajustados para capturar e contabilizar créditos do IVA. O cronograma legislativo prevê:
- Período de teste em 2027 com alíquota reduzida;
- Escalonamento pleno entre 2028 e 2030 para a unificação dos tributos atuais;
- Revisão de alíquotas e partilha de receita entre entes federados em 2031.
Empresas têm, portanto, menos de dezoito meses para concluir a primeira fase de adequações. O secretário classificou o intervalo como “curto, porém factível” caso os setores iniciem imediatamente diagnósticos de impacto e mapeamento de processos.
Entre os pontos operacionais mais sensíveis citados estão:
- parametrização de software para emissão de notas fiscais com destaque de crédito;
- treinamento de equipes de contabilidade em nova classificação de itens e serviços;
- revisão de contratos de prestação continuada para refletir modelos sem cumulatividade;
- integração de cadastros estaduais e federais em plataforma compartilhada.
Appy admitiu que haverá custo de transição expressivo, mas reiterou que o ganho estrutural compensa os investimentos iniciais. Na avaliação dele, setores mais fragmentados — como transporte rodoviário e comércio atacadista — devem sentir maior impacto por dependerem de múltiplos regimes fiscais atualmente vigentes.
Conclusão técnica: próximos passos e recomendações objetivas
A reforma tributária avança para a reta final com votação dos ajustes regulamentares prevista para o último trimestre de 2026. Até lá, empresas precisam:
- concluir auditoria interna dos fluxos tributários para mensurar créditos potenciais;
- negociar com fornecedores a redistribuição de margens baseada no IVA;
- atualizar sistemas e capacitar equipes antes do programa-piloto de 2027;
- acompanhar regulamentações complementares que definirão alíquotas setoriais.
O Ministério da Fazenda mantém calendário de audiências públicas e divulga cadernos técnicos periodicamente. Na ausência de adiamentos legislativos, a migração plena para o IVA será compulsória até 2030, encerrando o modelo cumulativo vigente e alinhando a tributação brasileira a padrões adotados em mais de 170 economias. Companhias que anteciparem ajustes tendem a capturar ganhos de eficiência e participar com vantagem do novo ambiente concorrencial.



