Natura amplia prejuízo para R$ 445 milhões no 1T26 após salto de 787,6% e prevê ganhos da reorganização no segundo trimestre

A Natura reportou prejuízo líquido de R$ 445 milhões no primeiro trimestre de 2026, resultado 787,6% superior às perdas de um ano antes, refletindo queda de receita, despesas extraordinárias e os efeitos da ampla reorganização em curso, divulgada em 11 de maio; a administração afirma que a captura das sinergias deve começar a aparecer a partir do segundo trimestre.

Queda de receita pressiona margens e surpreende o mercado

A Natura &Co registrou receita líquida de R$ 4,75 bilhões entre janeiro e março, retração de 7,7% na comparação anual. O montante ficou acima dos R$ 4,3 bilhões projetados pelo consenso da LSEG, mas não impediu a deterioração das margens. O Ebitda recorrente somou R$ 346 milhões, recuo de 55,7%, levando a margem Ebitda consolidada a 13,8%, queda de 8,6 pontos percentuais. No Brasil, as vendas diminuíram 5,5%, influenciadas principalmente pelos desempenhos negativos de Natura (-3%) e Avon (-13,8%).

Segundo o CEO João Paulo Ferreira, o endividamento das famílias e a menor renda disponível limitaram o consumo, especialmente no Nordeste, onde a rede de consultoras apresentou menor atividade e redução na venda média por revendedora. A consequência foi a retração das receitas e a pressão adicional sobre a rentabilidade.

Despesas de reorganização elevam perdas operacionais

O processo de turnaround iniciado em 2025 segue gerando custos significativos. Somente no trimestre, foram reconhecidas despesas extraordinárias de R$ 221 milhões, majoritariamente ligadas a verbas rescisórias após o desligamento de 25% da força de trabalho global. Esse movimento ainda inclui o fechamento da fábrica de Interlagos, em São Paulo, e a reforma de unidades franqueadas, o que também afetou a disponibilidade de produtos e o nível de serviço.

Como resultado, o fluxo de caixa livre foi negativo em R$ 315 milhões. A diretora financeira Sílvia Vilas Boas destacou, em teleconferência, que cerca de três quartos dos desligamentos programados já foram concluídos, reduzindo o risco de novas pressões de caixa a partir do segundo trimestre.

Desempenho regional evidencia fragilidade na América Latina e nos canais físicos

Na América Latina, a hiperinflação e a volatilidade cambial na Argentina derrubaram a margem Ebitda regional para -1,5%, ante 7,5% no mesmo intervalo de 2025. No mercado doméstico, a companhia reformou lojas franqueadas para um formato mais produtivo; contudo, as vendas em mesmas lojas cresceram apenas 0,6%.

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A marca Avon, relançada em março, ainda não converteu o investimento em receita adicional. A cada campanha, novidades em fragrâncias e maquiagem — como a linha Iconics — buscam reacelerar o giro de produtos. Já para a expansão física, foram inauguradas 72 lojas nos últimos 12 meses, elevando o parque total a 1.090 unidades. O CEO indicou que a abertura de pontos de venda deverá ganhar velocidade nos próximos trimestres.

Análises de mercado sinalizam fase de transição

Relatórios de instituições como BTG Pactual e Ativa Investimentos classificam o período atual como um “intervalo de transição”. O BTG ressalta que, após a alienação da Avon International, a companhia dispõe de um balanço mais enxuto, porém ainda precisa entregar crescimento de receita e recondução das margens. A Ativa reforça a necessidade de alavancar iniciativas comerciais para converter o ganho de eficiência em números financeiros mais robustos.

No pregão de 12 de maio, os papéis NATU3 recuavam 2,57% por volta das 11h30, refletindo a decepção de parte dos investidores com o ritmo de recuperação.

Conclusão Técnica

Os resultados do 1T26 evidenciam os custos iniciais de um processo de reorganização profundo, marcado por redução de estrutura, fechamento de fábricas e relançamento de marcas. A elevada despesa extraordinária e a retração da receita comprimiram margens, culminando em prejuízo líquido expressivo. A administração projeta que os benefícios operacionais — menor base de custos, portfólio revigorado e expansão seletiva de lojas — comecem a ser capturados a partir do segundo trimestre de 2026. O desempenho dos próximos períodos dependerá da recuperação do consumo no Brasil, da estabilização macroeconômica na América Latina e da capacidade da companhia de converter as iniciativas estratégicas em expansão de vendas e recomposição de rentabilidade.