Uma pesquisa da Serasa Experian, divulgada em 18 de agosto de 2026, mostra que 53% dos trabalhadores brasileiros, tanto CLT quanto PJ, não conseguem cobrir todas as despesas mensais apenas com o salário. O levantamento indica uso crescente de fontes alternativas de renda, aumento de inadimplência e reflexos diretos no ambiente corporativo.
Pressão sobre o orçamento doméstico
Entre os entrevistados, 47% complementam a renda com bicos, horas extras, cartão de crédito ou empréstimos. Outros 6% encerram o mês inadimplentes, sem recorrer a alternativas. Os números permanecem estáveis em relação a 2025, quando o índice era de 54%, sugerindo um problema estrutural de renda versus custo de vida.
No detalhamento dos gastos, a pesquisa aponta que 78% das famílias consideram a alimentação o item mais oneroso, seguida pelas contas de luz, água e gás, que pesam para 72%. Financiamentos de imóvel, veículo ou outras modalidades aparecem em terceiro, com 44% dos entrevistados.
Mesmo com a desaceleração de 0,67% nos preços de alimentos registrada pelo IPCA em julho, o custo total de vida segue crescendo acima da renda. Segundo o IBGE, 68% dos trabalhadores recebem até dois salários-mínimos, o que evidencia a defasagem entre remuneração e despesas básicas.
Consequências para saúde financeira e mental
A combinação de despesas essenciais e compromissos financeiros reduz a capacidade de poupança e expõe os trabalhadores a riscos de endividamento. O estudo correlaciona a fragilidade econômica a problemas de bem-estar:
- 61% relatam aumento de estresse em casa e no trabalho;
- 44% apresentam episódios de insônia;
- 41% indicam irritabilidade constante.
Também foram citados depressão, dores físicas e isolamento social, reforçando a relação entre finanças pessoais e saúde mental. No ambiente profissional, 51% apontam estresse, 46% registram exaustão extrema e 35% notam queda de atenção.
Implicações regulatórias e dever das empresas
De acordo com Délber Lage, diretor de Soluções para RH da Serasa Experian, a atualização da Norma Regulamentadora 1 (NR-1) exige que fatores psicossociais ligados ao trabalho sejam mapeados no Programa de Gerenciamento de Riscos. Embora a norma não obrigue o controle direto da vida financeira dos colaboradores, seus reflexos no desempenho profissional devem ser considerados.
A Serasa Experian recomenda que companhias adotem programas de educação financeira e benefícios voltados ao bem-estar econômico. Entre as soluções sugeridas estão linhas de crédito responsáveis, orientação para uso de cartão de crédito e iniciativas de renegociação de dívidas, visando reduzir absenteísmo e queda de produtividade.
Especialistas em finanças pessoais, como Nathalia Arcuri, destacam a defasagem entre salários e custos básicos como fator central da pressão orçamentária. Apesar do baixo índice de desemprego, a renda média não acompanha a escalada de preços, ampliando a dependência de trabalhos extras e créditos de alto custo.
Caminhos prováveis para o cenário de renda
Analistas preveem que, sem crescimento consistente dos salários reais ou políticas de redução de custos essenciais, a proporção de trabalhadores com insuficiência de renda deve permanecer elevada. Medidas corporativas de suporte financeiro podem mitigar impactos imediatos, mas não substituem ajustes estruturais na economia.
Conclusão Técnica: A pesquisa confirma a permanência de um desequilíbrio entre remuneração e custo de vida no Brasil, afetando finanças pessoais, saúde mental e produtividade. A exigência da NR-1 fortalece a visão de que empresas têm papel ativo na mitigação de riscos psicossociais ligados à instabilidade financeira. A continuidade desse cenário dependerá da evolução de políticas salariais, programas de educação financeira e iniciativas que ampliem a renda real dos trabalhadores.



