Grandes varejistas brasileiras encerram mais de 1,1 mil lojas desde 2022 em meio à virada digital

Mais de 1,1 mil lojas físicas de Casas Bahia, Americanas, Carrefour, Marisa e Magazine Luiza deixaram de operar entre o fim de 2022 e o primeiro semestre de 2026, resultado de ajustes estruturais motivados por endividamento elevado, juros altos e pela aceleração das vendas online, segundo levantamento da Broadcast.

Corte de lojas redefine a configuração do varejo nacional

O levantamento compara os pontos de venda informados nos balanços de dezembro de 2022 com os números mais recentes divulgados. No agregado, a redução líquida ultrapassa 1,1 mil unidades, já considerando eventuais inaugurações no período. O movimento sinaliza a transição de um modelo intensivo em expansão física para uma estratégia focada em marketplaces, aplicativos e integração omnichannel.

Especialistas apontam que o ciclo de juros elevados pressionou margens e ampliou o custo de capital, tornando inviável a manutenção de lojas deficitárias. Paralelamente, o e-commerce passou a responder por 14,4 % do varejo brasileiro em 2025, com previsão de atingir 16,7 % em 2026, conforme estimativas do UBS BB.

Casas Bahia e Americanas concentram o maior volume de fechamentos

A Casas Bahia lidera a retração. No fim de 2022, a rede possuía 1.133 unidades; chegou a 1.034 em junho de 2026 e anunciou o encerramento adicional de 298 pontos. Caso o plano seja executado integralmente, a companhia terá encolhido cerca de 400 lojas em menos de quatro anos. O ajuste acompanha uma dívida de R$ 17,3 bilhões em recuperação judicial e a prioridade declarada de geração de caixa.

A Americanas percorreu trajetória semelhante após revelar inconsistências contábeis em janeiro de 2023. Entre o fim de 2022 e dezembro de 2025, a varejista reduziu a rede de 1.803 para 1.470 unidades, uma retração de 333 lojas. O processo de recuperação judicial orientou o foco para pontos com maior potencial de retorno.

Carrefour, Marisa e Magazine Luiza ajustam formatos e estratégia de crescimento

Durante a integração do Grupo BIG, o Carrefour revisou o portfólio e passou de 1.203 para 1.000 lojas entre dezembro de 2022 e março de 2025, diferença que inclui fechamentos definitivos, vendas e mudanças de bandeira. Desse total, 123 pontos foram encerrados de forma definitiva.

Na Marisa, o corte de 104 unidades — de 334 para 230 lojas em três anos — busca elevar a rentabilidade. O símbolo da readequação foi o fechamento de uma das principais vitrines da rede na Avenida Paulista no início de 2026.

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O Magazine Luiza reduziu seu parque de 1.339 para 1.246 lojas entre dezembro de 2022 e junho de 2026. Apesar do recuo líquido de 93 unidades, a empresa anunciou a retomada das inaugurações no segundo semestre deste ano, após período de maior disciplina financeira. No 2º trimestre, as vendas físicas cresceram 10,3 %, enquanto o e-commerce recuou 11,9 %, sinalizando busca de equilíbrio entre canais.

Avanço digital acelera exposição de fragilidades operacionais

Segundo a AGR Consultores, o aumento da penetração digital evidenciou ineficiências de cadeias com margens comprimidas ou estruturas de custo desalinhadas. A consultora Ana Paula Tozzi destaca que fechar lojas deficitárias reduz despesas com aluguel e pessoal, libera estoques e diminui a necessidade de capital de giro, mas não soluciona problemas de endividamento nem de modelo de negócio.

Em 2025, o comércio eletrônico movimentou R$ 423 bilhões, alta de 21 %. Mercado Livre, Shopee, Amazon e Magazine Luiza responderam por 82 % do canal, com o Magalu perdendo 2,7 pontos percentuais e caindo para a quarta posição. A competição de plataformas internacionais ampliou a pressão sobre categorias dominadas por redes nacionais, como eletrônicos, beleza e artigos esportivos.

Conclusão Técnica

O fechamento de mais de 1,1 mil lojas pelas cinco principais varejistas reflete a combinação de ambiente macroeconômico adverso e mudança estrutural no comportamento de compra. A curto prazo, os cortes aliviam despesas fixas e possibilitam foco em unidades rentáveis, enquanto os investimentos migram para tecnologia, logística last-mile e integração omnichannel. A médio prazo, a manutenção da competitividade dependerá da capacidade dessas redes de converter tráfego digital em vendas lucrativas, renegociar dívidas e selecionar pontos físicos com alta produtividade. O setor continuará testando formatos híbridos, em que lojas funcionam simultaneamente como showrooms, hubs de retirada e centros de distribuição urbana.