O deslocamento do maior porta-aviões dos Estados Unidos, o USS Gerald Ford, acompanhado por um submarino nuclear, dez navios de apoio e tropas, colocou a América do Sul em alerta no fim de ano. Caças norte-americanos realizam voos a aproximadamente 100 quilômetros de Caracas, sinalizando a possibilidade de ações direcionadas contra o governo de Nicolás Maduro.
De acordo com o embaixador brasileiro Roberto Abdenur, Washington nem tenta justificar a operação como defesa da democracia. O presidente Donald Trump teria afirmado que o objetivo é retomar campos de petróleo desapropriados por administrações anteriores de Caracas.
Papel do Brasil
Em meio à escalada, o presidente Lula ofereceu-se para intermediar negociações. Abdenur considera a iniciativa relevante, ainda que improvável de ser aceita pela Casa Branca. “O simples gesto reforça a tradição diplomática brasileira de manter a região livre de conflitos e de presença militar externa”, ressaltou.
Essa linha de atuação remonta a 1986, quando Brasília liderou a criação da Zopacas (Zona de Cooperação no Atlântico Sul), que reúne países sul-americanos e da costa africana com o propósito de afastar armamentos nucleares e forças de potências de fora da área.
Riscos de intervenção limitada
Para o ex-embaixador em Washington, a invasão total da Venezuela é improvável devido ao tamanho do país. Ele avalia, contudo, que ações pontuais — como tentativas de capturar Maduro — podem ocorrer. “Deslocar contingente tão expressivo para não agir seria inconcebível”, afirmou.
Caracas, situada em terreno elevado e de difícil acesso, seria um obstáculo operacional. Além disso, Maduro distribuiu militares em cargos estratégicos e armou milícias leais, reforçando as defesas internas.
Cenário internacional complicado
O Kremlin declarou apoio ao governo venezuelano, enquanto a relação estratégica do Brasil com a Argentina foi enfraquecida e o Paraguai firmou acordo ainda pouco esclarecido com Washington. Abdenur também criticou a postura pró-Rússia de Brasília na guerra da Ucrânia e defende que Lula condene qualquer intervenção militar estrangeira na América do Sul.

Imagem: Pedro MATTEY via oglobo.globo.com
Para o diplomata, o impasse pode ganhar proporções semelhantes à crise dos mísseis de 1962. “Maduro é um ditador que mereceria responder por seus atos, mas isso não legitima violar a soberania venezuelana em nome de interesses econômicos”, concluiu.
Enquanto Washington mobiliza poder bélico inédito na região, o governo brasileiro busca espaço para a diplomacia e tenta evitar que a crise evolua para conflito de grandes proporções.
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Com informações de O Globo


